PARA NÃO DESCUIDAR DO PRATO EM QUE SE COME

Pensar na louça onde serão servidos os pratos pode ser um diferencial para bares e restaurantes


Antes de abrir seu restaurante, Ivan Ralston passou meses pesquisando fornecedores. Foi atrás de produtores de hortaliças cultivadas com boas práticas agrícolas. Quis descobrir quem era capaz de lhe trazer os peixes mais frescos. Procurou um conhecedor das coisas da terra para auxiliar na montagem das hortas do restaurante. Ao mesmo tempo, criou e testou um tanto de receitas até selecionar as que entrariam no cardápio do Tuju. Faltava definir em quais louças as serviria.

Tinha voltado não havia muito tempo de uma temporada no espanhol Mugaritz, em Errenteria, onde predominam as porcelanas brancas. Com isso em mente, chegou às louças da Vista Alegre e gostou do que viu. Mas foi questionado pela mulher, Julia Vidigal, que trabalha com “branding” e estava desenvolvendo o conceito do Tuju. Louças portuguesas em um restaurante brasileiro, de um cozinheiro empenhado em fortalecer a cadeia local de produtores? A indagação fez sentido para ele, e Ralston percebeu que a busca por fornecedores deveria extrapolar o universo da produção de alimentos. Precisava pesquisar também ceramistas que pudessem desenhar louças sob medida para suas receitas. “Como decidi que os acabamentos não iam ser folhinhas milimetricamente calculadas nem molhos pontilhados, precisava de pratos que dessem beleza às receitas. Normalmente é um trabalho bem chato. Você pensa na receita e calcula o tamanho exato da porção, e o ceramista tem que adaptar o desenho do prato à ela”, diz Ralston.

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A dinâmica no Tuju (r. Fradique Coutinho, 1.248, Vila Madalena, SP, tel. 11 2691-5548) exemplifica a prática cada vez mais frequente entre os restaurantes de maior relevância, sobretudo em São Paulo e no Rio de Janeiro, de encomendarem cerâmicas para atender a demandas específicas. Ora para a estreia de um novo menu, ora para um jantar especial – ou até pensados unicamente para uma receita. Pratos de porcelana branca com formato convencional, por exemplo, estão caindo em desuso nos restaurantes contemporâneos.

O processo varia bastante de chef para chef, de ateliê para ateliê, e depende de uma série de fatores. Há peças projetadas do zero, caso de um prato que a ceramista japonesa Kimi Nii fez para o canelone de pato no tucupi do Tuju. Ralston precisava de uma peça com uma área espaçosa, onde iriam os três rolinhos de massa e um compartimento para o tucupi. O resultado foi uma louça plana, bonita e surpreendente, com concavidade descentralizada que comporta o molho. “O cozinheiro diz o que quer servir, e eu soluciono com uma peça. Geralmente é assim. Eles chegam com um problema e tenho de responder com um prato que atenda às necessidades deles, respeitando as característica do material. Têm de embelezar as receitas ou apenas realçar o alimento. É um trabalho de designer”, diz Kimi. Outros que compõem o enxoval do restaurante já constavam do portfólio da ceramista e foram adaptados para o chef. “Ela tinha uma cestinha maior, para pôr flor. Achei linda e pedi uma versão reduzida para colocar os pães do couvert”, diz Ralston.

Ceramista há 36 anos, Kimi se surpreende com os usos dados pelos profissionais da cozinha a peças que ela criou para outra finalidade. Quando Shin Koike, dos restaurantes Aizomê e Sakagura A1, foi ao ateliê pela primeira vez, enamorou-se por um objeto ovalado com tampa de fechamento irregular como uma casca de ovo quebrado. “‘Mas isso aqui?’, perguntei. Ele disse que queria usar fechado, para o cliente abrir. Achei incrível. Nunca tinha pensado que aquela caixinha de joias fosse parar na mesa de um restaurante.” Ainda que suas louças tenham sido escolhidas por muitos chefs, Kimi nunca teve essa intenção com seu trabalho. Tampouco se restringe a eles. Suas peças são vendidas no showroom do ateliê (www.kiminii.com.br) e em lojas como a Galeria Nacional (www.galerianacional.com.br).

Já a ceramista Gisele Gandolfi, que abriu a Muriqui (www.muriquiceramica.com.br) após participar de uma expedição com a chef Ana Luiza Trajano, acostumou-se a receber pedidos desafiadores. “A Ana já ‘brifou’ um prato no meio da floresta. Ligou perguntando se eu lembrava da piracaia [nome dado pelos índios aos peixes assados na brasa] que tínhamos comido no rio Tapajós. Estava em uma tribo no Acre e queria misturar isso a uma lenda sobre cobra”, diz.

Gisele criou uma cerâmica que emula um moquém. Um prato de formato levemente curvo, à semelhança dos caminhos de um rio, e textura que reproduz o padrão da pele de uma cobra. Sobre ele, uma estrutura faz alusão à grelha de varas usada pelos índios para moquear peixes e carnes de caça. A peça compunha um menu do Brasil a Gosto (www.brasilagosto.com.br) inspirado nos yawanawá. Ia à mesa com um pintado enrolado em folha de bananeira.

“Fica meio cenográfica porque é uma peça que tem a ver com o folclore brasileiro. É diferente de quando estou criando para o Alberto [Landgraf], porque tudo para ele é função. Não quer firula. O que tem de aparecer é a comida. Não é para ninguém sair falando do prato. A gente se apega às formas básicas da geometria e traz um refinamento na textura ou no esmalte. São estilos de restaurantes. E de briefings”, diz Gisele.

A interação entre cozinheiro e ceramista demanda tempo. Conhecer bem a linha do restaurante ajuda no processo. “No começo foi um pouco difícil. A Gi foi algumas vezes comer no Epice, e isso a ajudou a entender o que eu fazia, o que eu queria e o que é importante nos meus pratos. Gosto de coisas mais minimalistas mesmo, sóbrias”, diz Landgraf. Quando ele tem a ideia de uma receita, passa exatamente o que espera da louça em que vai servi-la, do tom às medidas. “Defino quantos centímetros precisa ter de altura, largura, inclinação, profundidade e tamanho de base. Aí a Gisele faz uns pilotos e me manda. Primeiro vem o sabor, a estética é consequência.”

Matéria publicada no jornal Valo Econômico em 08 de Novembro de 2014

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TINTAS FEITAS COM TERRA CRUA E ÁGUA

Letícia Achcar adora pôr a mão na massa. E foi assim, empiricamente, que a arquiteta chegou à premiada mistura de terra crua e água – além de outros ingredientes, guardados a sete chaves – comercializada pela Solum. “Em 2003, eu estava numa grande obra, produzindo in loco a tinta encomendada, quando percebi a necessidade de industrializar o processo”, revela. Acostumada apenas com empreitadas construtivas, Letícia pediu reforços para gerenciar o negócio. Delegou a responsabilidade à sua irmã, Valéria, que acumulara experiência administrativa numa indústria de revestimentos. Onze anos depois, a cartela da empresa apresenta três coleções (Revestimento, Restauro e Sambaqui) e 30 cores na paleta. www.tintasolum.com

A arquiteta e proprietária da marca, Letícia Achcar, gosta de se envolver em todas as etapas de fabricação: desde a verificação da matéria-prima até o desenvolvimento de produtos e novas aplicações.

A diversidade de nosso solo é a principal matéria-prima desta fábrica de tintas.

O produto vem em galões de 18L (R$ 280 cada um, com mão de obra à parte), suficientes para cobrir até 18 m² de paredes, já incluindo as duas demãos exigidas.

No showroom, em São Paulo, há amostras de todas as cores, que incluem nuances de bege, branco, cinza e rosa.

A superfície deve estar nivelada com massa corrida ou reboco fino e livre de umidade, mofo e sujeira.

A arquiteta e proprietária da marca, Letícia Achcar, gosta de se envolver em todas as etapas de fabricação: desde a verificação da matéria-prima até o desenvolvimento de produtos e novas aplicações.

O uso de brocha, pincel, rolo ou desempenadeira é o que confere textura à tinta, que aceita finalização com cera de abelha ou carnaúba. Aqui, exemplos de tons da coleção revestimento.

A fórmula é segredo, mas a criadora garante que a mistura resulta num revestimento mineral à base de água, livre de compostos orgânicos voláteis (covs), atóxico e inodoro. “É super-resistente e pode ficar exposto às intempéries”, afirma.

O uso de brocha, pincel, rolo ou desempenadeira é o que confere textura à tinta, que aceita finalização com cera de abelha ou carnaúba. Aqui, exemplos de tons da coleção revestimento.

Seleção de tipos de terra, extraídos de jazidas legalizadas.

A cor mais pedida e famosa da Solum é o terracota. A massa pode ser aplicada com Um instrumento que reproduz as superfícies de taipa ou uma pistola de projeção.

A diversidade de nosso solo é a principal matéria-prima desta fábrica de tintas.

Matéria publicada na revista Arquitetura & Construção em Novembro de 2014

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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PEDRAS E MADEIRA INTEGRAM CASA À NAUTREZA E ORLA DO RIO

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Pedra e madeira fazem integração da morada com a natureza

A morada de pedra e madeira cumaru, no bairro de Joá, no Rio, explora seu entorno.

Com forte declive e sem vista direta para o Atlântico, a residência de 485 metros quadrados tem a entrada, a área social e a piscina no segundo pavimento. Abaixo, ficam os quartos de hóspedes e a área de serviços, rodeada pro um jardim.

As áreas envidraçadas valorizam a paisagem, como a da pedra da Gávea (ponto turístico da zonal sul da cidade), ao mesmo tempo em que se recolhem entre as paredes, integrando o living e o terraço.

A privacidade é garantida pelo terceiro pavimento, de menos proporção, que recebe a suíte principal e o escritório, também voltados para o horizonte.

A estrutura é de metal e concreto. Nos revestimentos, o arquiteto optou materiais que se fundissem à paisagem, como a pedra a madeira.

Já o projeto de interiores e decoração é minimalista e valoriza o conforto e o despojamento.

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Declive do terreno força elevação da casa, que tem 3 andares

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Área envidraçada incorpora vegetação aos cômodos internos

Matéria publicada no jornal Folha de São Paulo em 16 de Novembro de 2014

 

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USAR PÍNUS É O MÁXIMO!

Os painéis da madeira clara – e sustentável – definiram a atmosfera aconchegante na decoração deste apartamento paulistano.

“Como assim cobrir as paredes de pínus?” Torcer o nariz foi a primeira reação do morador, um empresário, diante da inusitada proposta dos arquitetos Veridiana Tamburus e Fabio Storrer, autores da reforma do apartamento. Nem o proprietário nem sua noiva confiaram de imediato na ideia de forrar as superfícies, desde o hall, de ripas de uma madeira mais popular. A dupla de profissionais, contudo, tinha certeza do resultado. “Eles não conseguiam vislumbrar o revestimento aplicado, mas provamos que o visual ficaria aconchegante quando finalizamos o desenho no computador”, lembra Veridiana. Vencida a resistência do começo, o casal morreu de amores pelo material ao ver as paredes prontas. Do encantamento surgiu a vontade de oficializar o casamento no novo endereço. Abraçada pelo painel amadeirado, a mesa de tora maciça se transformou no altar da cerimônia testemunhada só pelos mais íntimos. Hoje, ambos riem da própria teimosia e não imaginam jeito mais caloroso de morar.

Apostar na madeira para trazer conforto é uma proposta alinhada com o espírito de nosso tempo, no qual todos desejam se aproximar da natureza. Em sintonia com essa ideia, presente tanto no discurso dos arquitetos do escritório Storrer Tamburus quanto no dos moradores, o pínus veio para vestir a sala de aconchego. Despojados, fãs de praia e hábitos saudáveis, os proprietários sonhavam em ter uma morada jovial, que acolhesse bem os amigos e de onde ninguém desejasse ir embora. Exagero? Nem um pouco. Os dois não gostam mais de passar longos períodos fora de casa, e, sempre que dá, os encontros da turma acontecem aqui. “O apartamento ganhou nossa identidade. Se pudesse defini-lo numa só palavra, diria que é autêntico”, afirma a empresária. “Sem firulas nem exageros mas gostoso.” O clima de deleite se acentua graças ao piso de madeira de demolição, às tonalidades orgânicas de móveis e objetos e à luminosidade gentil que esgueira calmamente aos espaços integrados.

Como combinar as paredes de pínus

›› É preciso acrescentar outros elementos de madeira natural à decoração, como a mesa de jantar usada neste projeto. Senão, o pínus parecerá descolado do restante.

›› Por ser um material claro, associa-se facilmente a outras cores. Aqui, os arquitetos adotaram uma paleta de verde, rosa e cinza – todos em versões bem suaves para não destoar da atmosfera de tranquilidade.

›› Os veios dourados da espécie chamam objetos nesse tom. Note que ele está salpicado em vasos e almofadas.

Foto de Beto Riginik (Gris Escritório de Arte) na parede. Destaque para a poltrona Charles Eames na sala.

Tábuas de pínus autoclavado (Filarte, 180 reais, o m² instalado) cobrem as paredes do hall do elevador, a porta de entrada e o banco da varanda, integrada à sala na reforma.

Pufes da By Kamy.

As almofadas do estar vieram das lojas Empório Beraldin, Celina Dias, Conceito Firma Casa e JRJ.

O lavabo ganhou papel de parede (Wallpaper) e espelho com moldura dourada (Juliana Benfatti).

Detalhe da poltrona Charles Eames e do tapete artesanal com estampa geométrica assinado por Lina Miranda (Square Foot).

Elas formam um trio de superamigas: a moradora (de costas), a arquiteta Veridiana Tamburus (ao centro) e a designer Roberta Faustini, autora da poltrona vermelha Iron Xis, que preencheu um canto vazio. “Antes, eu não sabia o que escolher para o espaço”, revela a empresária.

Tapete artesanal com estampa geométrica assinado por Lina Miranda (Square Foot) e cadeira de pínus (Poeira). A poltrona vermelha Iron Xis da designer Roberto Faustini preencheu um canto vazio. preencheu um canto vazio. “Antes, eu não sabia o que escolher para o espaço”, revela a empresária.

Fechadas, as portas compõem o amplo painel de pínus que camufla a cozinha. Abertas, integram o ambiente à sala. Prateleiras da mesma espécie apoiam utensílios e enfeites no espaço defnido pela bancada central de Corian (DuPont).

Mesa Tulipa traz as cadeiras de carvalho natural Nerd (Micasa), do designer David Geckeler.

Bufê de laca brilhante da Filarte.

Na suíte do casal, pufe de lona da Alba Barbosa Casa, roupa de cama de Ari Beraldin e criado-mudo de Juliana Benfatti.

“Diferentemente da pintura, a madeira é um elemento vivo, e seu poder estético reside na criação de uma identidade singular” Veridiana Tamburus, sócia de Fabio Storrer

Matéria publicada na revista Casa Claudia em Novembro de 2014 por Reportagem Visual Zizi Carderari | Texto Denise Gustavsen | Fotos Marco Antonio

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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TENHA UMA COZINHA PROFISSIONAL DENTRO DE SUA CASA

Os módulos, armários e refrigeradores são produzidos com aço inox

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Agora, os quituteiros de plantão terão mais recursos para se esbaldar. Embora as peças desta nova linha de equipamentos sejam destinadas a profissionais, alguns módulos se adaptam totalmente a casas e apartamentos. Um bom exemplo é o balcão de duas cubas, que dispõe de escorredor acoplado. Outro? o charbroiler de pedras vulcânicas, que deixam a comida com sabor ainda mais especial . Da Tramontina.

Matéria publicada na revista Arquitetura & Construção em Novembro de 2014

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GARIMPO DE DESIGN

Garimpar peças de design é buscar ideias e possibilidades

A decoradora Stella Crissiuma garimpa objetos de design. O resultado está no site (stellacrissiuma.com.br), que ela acaba de lançar.

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Qual é a premissa do garimpo das peças?
Stella Crissiuma - Cruzar fronteiras e trazer novas ideias e possibilidades.

Utilidade ou design?
Tudo junto e misturado. O bom objeto tem raízes, desenho e funções.

Você considera alguma peça coringa?
Luminárias são sempre ótimas opções para os ambientes da casa. Podem ser de chão, parede e mesa. A versatilidade para elas é algo a ser considerado. Além delas, livros de arte.

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Matéria publicada no jornal Folha de São Paulo em 16 de Novembro de 2014

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FARMÁCIAS: AMPLIAÇÃO DO FOCO DO NEGÓCIO

A venda de produtos que não se enquadram na categoria dos medicamentos, como produtos de beleza e barras de cereais, tem hoje um papel de destaque no avanço do varejo farmacêutico.

A categoria de não medicamentos, que respondia por cerca de 23% das vendas das grandes redes em 2004, neste ano corresponde a 33%.

A participação dos medicamentos nas vendas totais, por sua vez, caiu de um patamar de 77% para 67% em dez anos, números que justificam o interesse do setor por territórios além dos remédios.

“Esse grupo de não medicamentos tem crescido aqui, mas, se compararmos com mercados como o americano e o britânico, em que eles representam perto da metade do faturamento, vemos que ainda pode crescer no Brasil”, diz Sérgio Mena Barreto, presidente da Abrafarma (Associação Brasileira de Redes de Farmácias e Drogarias).

“É uma categoria que ajuda a pagar os salários”, diz.

Os não medicamentos são um dos fatores de sobrevivência das farmácias pois, diferente dos medicamentos, não são submetidos a controle de preços do governo.

O comércio desses produtos subiu quase 20%. ante alta de 11,5% dos remédios.

VINHO EM FARMÁCIA

“E não é só nos EUA e no Reino Unido que esse modelo de venda de produtos de conveniência é mais desenvolvido. Países como África do Sul, Chile e Bolívia também são referências. No sul da Itália, é possível comprar vinho em farmácia”, diz Barreto.

Segundo ele, os donos de farmácias que não entenderam as mudanças de perfil pelas quais o varejo passou na última década já começaram a perder participação no mercado farmacêutico.

Muitas das farmácias menores, de bairro, que não estavam ligadas a redes e geralmente tinham pouco espaço físico para ampliar a oferta de produtos nas gôndolas tiveram de fechar as portas.

“A maior parte dos nossos consumidores são mulheres. Se entram numa farmácia hoje em dia e não encontram o achocolatado e a barra de cereal de que precisam para consumir rapidamente na rotina, vão trocar de farmácia. Elas também querem acesso a diversas marcas de xampu e hidratante. Não basta ter duas ou três opções.”

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Matéria publicada no jornal Folha de São Paulo em 16 de Novembro de 2014

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BOAS IDEIAS DA CASA COR

Presente em diversas capitais, a mostra reúne propostas inovadoras. Na edição do Rio de Janeiro, garimpamos uma casa adaptável. Em Vitória, descobrimos uma linda divisória de elementos vazados e, em Brasília, três portas pivotantes de diferentes estilos e materiais.

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SINAL DOS TEMPOS

Os quatro módulos que compõem o refúgio de 450 m² do arquiteto Duda Porto vêm prontos de fábrica e podem ser montados em qualquer lugar. No evento carioca, foram içados para uma cobertura. Seu caráter mutável soma múltiplas vantagens, entre elas, a possibilidade de trocar de endereço e crescer. “Além de chegarem inteiros ao terreno, permitem ampliar a casa de acordo com a necessidade do proprietário” , diz Duda. Batizados Grou, nome de uma ave migratória, são de metal e madeira.

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EFEITO ÓPTICO

Em prol de luz e ventilação naturais, o arquiteto Victor Sarcinelli adotou cobogós no hall. As peças de concreto de designer Ana Paula Castro resultam num arranjo original. “A trama orgânica foge dos tradicionais geométricos” , diz Victor

MATERIAL MISTO

Um composto de madeira e cimento (Viroc) dá forma às forma do ambiente assinado pela Dupla Arquitetura Estratégica. Trazidas de Portugal, as placas (1,25 x 2,47 m, com 12 cm de espessura) promovem bons isolamentos acústico e térmico.

LUZ BEM DOSADA

O loft do arquitetu Ney Lima é demarcado por três painéis (1,28 x 2,70 m cada um) feitos de treliça de jequitibá. Além de isolar o terraço, as imponentes estruturas, quando cerradas, filtram a luminosidade que entra na sala.

CLIMA DE FAZENDA

Veio dos típicos refúgios mineiros a inspiração da arquiteta Denise Zuba para compor a porta (2,30 x 4,50 m) da Casa de Campo. A folha de metal foi revestida de madeira de demolição, e sobras de ferro antigas deram origem às maçanetas.

Matéria publicada na revista Arquitetura & Construção em Novembro de 2014

 

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INOVAÇÃO COMEÇA NA INFÂNCIA, MAS ESCOLAS DESESTIMULAM AS CRIANÇAS

“Tenho um lastro da infância, tudo o que a gente é mais tarde vem da infância.” A frase do poeta Manoel de Barros pode ser aplicada ao universo da inovação. O consultor especializado no assunto, Valter Pieracciani, defende que inovar é uma atitude que começa na infância, mas na maioria das vezes esse atributo se perde na vida adulta devido a escolas com pedagogia retrógrada.

“Dotados de uma mente aberta, os inovadores e as crianças são sensíveis e têm uma percepção muito aguçada do que ocorre ao seu redor. Conseguem enxergar detalhes e situações que escapam à maioria das pessoas, pois elas tendem a ver o mundo sob uma ótica carregada de restrições”, destaca Pieracciani. Segundo o consultor – que atende por exemplo Embraer, Odebrecht, BRF, Bradesco e Fiat – as escolas de Ensino Fundamental nos Estados Unidos têm investido fortemente em disciplinas envolvendo o empreendedorismo e novas ideias. “No Brasil, as escolas são muito preocupadas com conteúdo curricular e as ideias das crianças que fogem do padrão não são valorizadas”, diz.

Diante desse cenário, Pieracciani está distribuindo nas escolas públicas do país um livro infantil de sua autoria, intitulado “A Verdadeira Mágica”. A obra conta a história de um garoto que inventou uma maquineta de jogos a partir de uma sucata de computador. Porém, um dia, sua invenção parou de funcionar e aqui começa a empreitada do garoto para consertá-la. O consultor mostra, por meio dessa história, que as ideias inovadoras não surgem de forma repentina, como um insight, e dependem sim de processos e metodologias específicas, além de trabalhos em equipe.

Pieracciani já distribuiu 20 mil exemplares do livro nas escolas públicas e a meta é atingir 100 mil até o fim do próximo ano.

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Matéria publicada no jornal Valor Econômico em 14 de Novembro de 2014 por Beth Koike

 

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“A INOVAÇÃO VEM DO TOPO”

O visionário Peter Thiel, fundador do PayPal e o primeiro investidor do Facebook, fala sobre tecnologia, o que define o sucesso de uma startup e o papel crucial de seus fundadores.

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São Paulo – No Vale do Silício, alguns nomes viram lendas. O fundador da Apple, Steve Jobs, o dono da Microsoft, Bill Gates, e o criador do Facebook, Mark Zuckerberg, são alguns deles. Num patamar logo abaixo vem o grupo dos “quase-lendas”, no qual está o americano Peter Thiel.

Em 1998, quando saiu do banco Credit Suisse, Thiel fundou o PayPal, empresa de pagamento eletrônico. Cinco anos depois, vendeu o negócio ao eBay por 1,5 bilhão de dólares. Em 2004, Thiel fez um investimento-anjo no Facebook, o primeiro que a rede social recebeu. Quando o negócio de Zuckerberg virou um sucesso, Thiel consagrou-se como um investidor visionário.

Hoje, é considerado um dos nomes mais importantes do Vale do Silício e tem uma fortuna estimada em mais de 2 bilhões de dólares. Nos últimos anos, colocou dinheiro em startups que crescem exponencialmente: o site de aluguel de quartos Airbnb, a montadora de carros elétricos Tesla Motors, a rede social  LinkedIn e a empresa de big data Palantir, avaliada recentemente em 9 bilhões de dólares.

Thiel raramente dá entrevistas. Apesar disso, é conhecido por suas opiniões polêmicas. Embora tenha estudado em Stanford, na Califórnia, umas das mais prestigiadas universidades do país, ele criou em 2010 uma fundação com um propósito inusitado: financiar, com até 100 000 dólares por ano, 20 jovens com menos de 20 anos que desejem sair da faculdade para empreender.

No começo de setembro, lançou nos Estados Unidos seu primeiro livro, De Zero a Um, que chega ao Brasil neste mês. Desde então, o livro é o mais vendido da seção de negócios nos Estados Unidos.

EXAME – O senhor diz que a inovação pode acontecer em qualquer lugar. Mas, se olharmos para o Vale do Silício, notamos que o contexto ajudou muito. Por que não há mais lugares assim?

Peter Thiel - Acredito que inovação pode acontecer em qualquer lugar. Mas essa não é uma pergunta fácil de responder. Ninguém realmente sabe por que o Vale do Silício é como é. Talvez o clima seja agradável, talvez haja um ambiente que crie uma rede eficiente de contatos. Mas, na área de tecnologia, se alguém está tentando criar algo novo, o foco deve ser global.

É claro que há a internet em português no Brasil ou a internet em chinês na China. Mas a maioria dos negócios de tecnologia está fundamentada em um mercado global. No Vale, você aprende a ter bom senso sobre o que está acontecendo no mundo todo. Se você é o melhor no Vale, há uma boa chance de que seja o melhor do mundo naquilo que desenvolveu.

EXAME - O que faz uma startup ter sucesso no Vale do Silício, um dos lugares mais competitivos do mundo?

Peter Thiel - No Vale do Silício, as empresas que fazem sucesso são únicas. Os fundadores saem em busca de um negócio no qual outros não pensaram antes. Essas empresas são detentoras de uma tecnologia disruptiva, não enfrentam concorrência e detêm o monopólio daquela tecnologia.

O Google tem o monopólio da busca, a Microsoft, dos sistemas operacionais, e a Apple esteve perto de ter o monopólio dos smartphones, mas ainda assim tem o monopólio da marca e da rede que criou. São esses monopólios de tecnologia que fazem as empresas diferentes e muito valiosas.

EXAME - E como os monopólios são criados?

Peter Thiel - É preciso ter uma tecnologia que seja a melhor. Só assim a empresa ganha tempo e evita que alguém a copie. Quando se começa uma empresa, é preciso começar pequeno e mirar um mercado pequeno. É um erro ir atrás de grandes mercados, porque há muita competição.

Ninguém quer ser um peixe pequeno em um oceano gigante. Pode-se ter também um monopólio criando uma rede de distribuição eficiente ou uma economia de escala boa, ou mesmo uma marca poderosa. A Coca-Cola é um monopólio. Outras empresas fazem um refrigerante parecido, mas a marca é muito forte, e as pessoas a preferem a qualquer outra.

EXAME - Para uma startup ter sucesso, ela precisa criar uma nova demanda?

Peter Thiel - Não diria que a empresa cria a demanda, mas certamente as pessoas não tinham percebido que a demanda existia. Não sei se Jobs criou a demanda por iPhones. As pessoas talvez já quisessem celulares que fizessem coisas diferentes.

Mas ele criou um produto que se encaixou numa demanda que, de alguma forma, era latente. E isso não surge de pesquisas de marketing, de questionários ou coisas do gênero. Surge de uma percepção aguçada do que os consumidores realmente querem.

EXAME - Quais são os passos cruciais depois de ter uma ideia inovadora?

Peter Thiel - Normalmente, pergunto aos fundadores de uma startup sua história anterior à empresa. O que faziam antes de começar o negócio, onde se conheceram. Se eles se encontraram uma semana antes e decidiram formar uma sociedade para criar um negócio, não é um bom sinal. Mas, se eles se conhecem há anos, falam e pensam sobre aquele negócio há muito tempo, é um bom caminho.

A maneira como a equipe trabalha é muito importante. Uma startup de sucesso é sempre resultado de uma combinação de três elementos essenciais: pessoas certas, boa tecnologia e um plano de negócios. Uma empresa bem-sucedida não é resultado de um voo solo.

É diferente de muitas carreiras em que é possível fazer sucesso trabalhando sem uma equipe, como um advogado que consegue trabalhar bem sozinho. Uma startup precisa de uma boa equipe. O ponto mais crítico de uma empresa no começo é as pessoas entenderem como vão lidar com os pontos altos e baixos do negócio. Momentos ruins vão acontecer e é nessa hora que a empresa não pode explodir.

EXAME - O senhor é a favor de as startups terem um plano bem estruturado com um papel claro para cada pessoa. Assim são as empresas grandes. Isso não coibe a inovação?

Peter Thiel - A empresa nunca deve ser burocrática. Ela precisa ser dinâmica. Os papeis precisam ser bem definidos, mas podem ser redefinidos. Quando eu era presidente do PayPal, a cada três meses revisava o organograma para ver se a estrutura ainda fazia sentido. Quem está mandando em quem? Isso está funcionando?

Nas empresas que estão começando, os papéis são fluidos e, às vezes, estão tão diluídos que se confundem, o que gera conflito. E, nesse momento, o que se quer é evitar conflitos internos, mas ao mesmo tempo é preciso permitir que os papéis mudem quando necessário. Só dessa maneira problemas podem ser enfrentados quando surgem. As pessoas menosprezam o que não conhecem.

Aqueles com uma carreira de engenharia ou científica normalmente subestimam os desafios do negócio. E os que são bons de negócio geralmente subestimam os desafios científicos ou de engenharia. Eu sou fã de negócios em que uma pessoa é mais técnica e a outra é mais do negócio. São habilidades que se complementam.

EXAME - No passado, as empresas eram protegidas por direitos autorais. Até que ponto negócios como o Facebook, uma plataforma que pode ser copiada, são mais vulneráveis?

As empresas baseadas em rede são robustas. Mesmo a Microsoft criou uma rede. As pessoas poderiam usar outro software, mas não seria eficiente, porque todo mundo estava usando o sistema da Microsoft. No fim, essa rede foi mais importante para a sobrevivência da empresa do que os próprios direitos autorais.

EXAME - De que forma startups como Airbnb, LinkedIn ou Facebook, nas quais o senhor tem investimentos, vão sobreviver no futuro?

Peter Thiel - Eu sou do conselho do Facebook, não posso falar muito. Mas a questão é que essas tecnologias têm certa resistência. Ninguém consegue desenvolver algo melhor do que elas oferecem no curto prazo.

E, uma vez que os clientes estão usando essa tecnologia, eles não a trocam facilmente. Mas, sem dúvida, continuar inovando é uma questão crítica e nada garante que essas empresas vão manter a liderança. O Facebook terá de pensar, por exemplo, sobre como vai lidar com a questão crucial da privacidade e da segurança da informação. Isso é algo que precisa melhorar.

EXAME - Como startups que se tornaram empresas gigantes, como Google e Microsoft, conseguem continuar inovando?

Peter Thiel - Acredito nas empresas que são lideradas pelo fundador. Acredito no Google, na Amazon ou no Facebook porque Larry Page, Jeff Bezos e Mark Zuckerberg, respectivamente os fundadores e presidentes dessas companhias, continuam impulsionando a inovação.

Quando o fundador sai ou morre, como Steve Jobs, fica mais difícil fazer isso. É o fundador que tem autoridade para fazer mudanças. A inovação vem do topo.

EXAME - Várias grandes empresas criaram, nos últimos anos, um departamento para investir em novos negócios e inovar. Isso funciona?

Peter Thiel - Normalmente não. E é importante entender o porquê. Não há razão para a inovação não acontecer em uma grande empresa, no governo ou numa ONG. A inovação pode ocorrer em muitos contextos. E, na maioria das vezes, as grandes empresas têm vantagens em relação às startups.

Têm mais capital e pessoas talentosas. Mas, geralmente, há muitas amarras políticas. As estruturas internas são conservadoras e preferem as coisas que já existem a fazer algo novo. A inovação precisa, então, ser orientada por um líder carismático. Isso ocorreu quando Steve Jobs voltou para a Apple em 1997.

A empresa já era grande, tinha centenas de funcionários. Jobs fez a Apple mudar radicalmente de um negócio de computadores para o de eletrônicos de consumo. É possível haver inovação em uma grande empresa, mas ela tem de vir do topo.

EXAME - Em seu livro, o senhor diz que a China não inova e não faz nada além de copiar produtos e montá-los em escala. A China não tem um papel importante na economia global?

Peter Thiel - Não acho que a China não possa inovar ou que exista algo na cultura chinesa que impeça o país de ser inovador. Mas a China não precisou inovar porque copia as coisas que funcionam no Ocidente. Se não fizer nada além disso, e ainda assim conseguir fazer sua renda per capita alcançar a americana ou a europeia, então certamente a China se tornará importante politicamente.

Isso mudará radicalmente o mundo. Já os Estados Unidos, a Europa e os países desenvolvidos precisam fazer coisas novas. Esse é, de longe, o maior desafio para essa parte do mundo.

EXAME - O senhor é um crítico ao modelo atual de educação. O que existe de errado com ele?

Peter Thiel - A educação atualmente é somente uma credencial. Com ela, a pessoa vai para a faculdade, ganha um diploma e consegue um bom emprego. Nos ­Estados Unidos ainda existe esse grupo de poucas universidades, no qual todos querem estar, mas poucos conseguem entrar. E, uma vez lá, as pessoas acabam trabalhando em bancos ou em escritórios de advocacia.

Mas não há uma única forma de aprender e um só caminho que as pessoas devam seguir. Nunca afirmei que todos devam ser empreendedores ou tra­balhar com tecnologia, mas precisamos estar abertos para uma sociedade em que as pessoas possam fazer diferentes coisas, e não seguir apenas esse caminho estreito.

EXAME - Qual o papel da tecnologia no mundo atualmente?

Peter Thiel - Não sou utópico em acreditar que a tecnologia automaticamente faz do mundo um lugar melhor. Há muitos problemas, porém, que só podem ser resolvidos com tecnologia. O padrão de vida em locais como Brasil ou China precisará da tecnologia para ser melhorado. Isso porque há limites de recursos naturais no mundo.

Precisamos, por exemplo, pensar em maneiras de construir casas de forma mais eficiente. Por isso, a tecnologia é essencial para fazer o mundo melhorar. Algumas doenças, por exemplo, só terão cura por causa de novas tecnologias. Poderemos curar a demência. Não são todas as tecnologias que farão o mundo melhor, mas sem tecnologia o mundo definitivamente não será melhor.

EXAME - E como o senhor vê o cenário de startups no Brasil?

Peter Thiel - Há um grande desafio para as startups brasileiras: elas querem ser as melhores no Brasil ou no mundo? Há espaço para os dois caminhos, mas naturalmente é mais fácil serem as melhores no mundo da internet que fala português.

Já analisamos várias startups brasileiras e investimos na Oppa, que vende móveis. Estamos mais focados nas empresas do Vale do Silício, mas estamos sempre abertos a novos negócios.

Matéria publicada na revista Exame em 12 de Novembro de 2014

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