NOSSOS RIOS: ÁGUAS OCULTAS

Poucos sabem, mas, em São Paulo, cerca de 300 cursos correm sob o asfalto. Um geógrafo e um arquiteto querem abrir os olhos da população para essa realidade com o projeto Rios e Ruas

“NOSSO TRABALHO É EMOCIONAR AS PESSOAS E RECRIAR A AFEIÇÃO PELA NATUREZA QUE PASSA BEM DEBAIXO DE NOSSOS PÉS” (JOSÉ BUENO – ARQUITETO)

Em tempos de crise hídrica, topar com um considerável volume de água escorrendo pela sarjeta aflige qualquer um. Os mais atentos se perguntam de onde vem tamanho desperdício. Talvez a resposta seja que, naquele ponto, está tentando voltar à superfície um dos cursos que cruzam a capital paulista – número apontado pela prefeitura, porém contestado pelo geógrafo Luiz de Campos Júnior e pelo arquiteto José Bueno. Para eles, a quantia é ainda maior. Desde, os dois são os responsáveis pelo Rios e Ruas, que promove palestras e expedições urbanas para mostrar a crianças e adultos onde ficam escondidos nascentes, rios, riachos e córregos. Embora mais de se encontrem tampo nado sou canalizados, todos são visíveis. Como Luiz ensinou a José quando se conheceram, basta observar: numa região alta, onde se enxerga bastante céu, busque vegetação e temperatura amena. Plantas típicas de áreas úmidas, como taioba e tapiá, indicam que há rio por perto.  “Essas águas parecem aguardar a correção de nosso grande erro de ocultá-las, consequência da rápida expansão da malha metropolitana”, diz o arquiteto. Segundo a dupla, mesmo pequenos canais podem hidratar a cidade. “Massó serão abertos se as pessoas pedirem. Para isso, elas precisam conhecê-los”, complementa o geógrafo.

MARGENS PLÁCIDAS DO IPIRANGA

Em setembro do ano passado, a iniciativa organizou uma pedalada nas redondezas do riacho citado no Hino Nacional, que nasce entre o Zoológico de São Paulo e o Jardim Botânico e segue até desaguar no Tamanduateí.

RIACHO DAS CORUJAS

Principia na Rua Heitor Penteado e corre a céu aberto nas praças Dolores Ibarruri e Rui Washington Pereira. Uma horta comunitária, regada coma água limpa da nascente, funciona por ali.

Matéria publicada na revista Casa Claudia em maio de 2015

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CONHEÇA AS CRIAÇÕES MULTIUSO DO ESTÚDIO NINHO

Abajur e quadro de recados. Espelho e revisteiro. Luminária, vaso e porta-lápis. Somar funções é uma das especialidades do Estúdio Ninho

Assim como as aves escolhem os galhos onde vão emaranhar seu ninho, Gabriela Kuniyoshi e Vinícius Lopes buscam o ideal construtivo para conceber peças surpreendentes. Não à toa, o nome do estúdio remete a tal forma. Os designers paulistanos se conheceram na graduação, no Senac, e firmaram parceria em 2012. Já na primeira criação ganharam prêmio: a luminária Post recebeu menção honrosa no Salão Design Casa Brasil 2013. O principal conceito da dupla é sugerir a aproximação entre objeto e indivíduo. “O objeto só ganha vida se o usuário interagir com ele. Por isso, propomos funções diversas e materiais inusitados”, fala Vinícius Lopes.

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Luminária, vaso e porta-lápis: a Síntese (14 x 16 cm) agrupa tudo isso numa só peça

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Poltrona de couro Virah (85 x 80 x 72 cm).Por 11 268 reais na Decameron

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A Post (22 x 22 cm) faz as vezes de luminária e quadro de recados. De cortiça e pínus, vem com alfinetes

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O sofá Deli (1,78 m x 83 cm x 73 cm) exibe pés de cumaru e concha de alumínio revestido de junco. Na Varanda’s Design, custa 5 650 reais

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Espelho, luminária, apoio e revisteiro compõem o Solem (62 cm x35 cm x 1,68 m). De jequitibá, vale 3 993 reais na Estar Móveis

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O NOVO PORCELANATO “HIDRÁULICO”

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Típicos dos ladrilhos hidráulicos, os padrões geométricos ditam a linguagem do revestimento.

Quem vê o material num ambiente como este logo percebe o enorme apelo contemporâneo do porcelanato da linha Cubit. A tecnologia também é de ponta: o efeito 3D (veja no detalhe) deve-se à impressão digital em alta definição, que imita fielmente os pisos cimentados. Mas nem só de novidade consiste sua beleza – a estampa e as cores se baseiam nos tradicionais ladrilhos hidráulicos. Em nuances de cinza, as placas (80 x 80 cm) têm bordas retificadas, que permitem rejuntes estreitos. Preço sugerido pelo fabricante (Roca Cerâmica): R$ 112 o m².

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Porcelanato Cubit Gris

Matéria publicada na revista Arquitetura & Construção em julho de 2015

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ESTUDO MOSTRA QUE CIDADES PERTO DAS CAPITAIS E COM GRANDE NÚMERO DE JOVENS DAS CLASSES C E D VÃO CRESCER MAIS RÁPIDO

Motor da economia entre 2004 e 2013, com crescimento real de quase 5% ao ano, o consumo das famílias avançou só 0,9% em 2014. Neste ano, por causa da recessão, o resultado deve ser pior. A expectativa de economistas é de queda de até 2%.

Se as projeções se confirmarem, será a primeira retração anual desde 2003. Apesar do cenário, no curto prazo, de desaceleração do consumo, a perspectiva é favorável no longo prazo. Entre 2014 e 2024, o consumo dos brasileiros deve ter um incremento de cerca de R$ 800 bilhões, o equivalente ao mercado do Reino Unido, aponta um estudo feito pela consultoria McKinsey. Só em bebidas alcoólicas, esse desembolso extra em dez anos equivale a dez vezes as vendas da Ambev.

O grande desafio é descobrir onde está esse potencial de consumo. E o estudo fez o mapeamento dos maiores mercados. “Há bolsões de crescimento do consumo nesse universo de desaceleração”, afirma Fabio Stul, sócio-diretor da consultoria e responsável pelo estudo. Para identificar esses bolsões, os consultores dividiram o País em 550 microrregiões, usando critérios econômicos e demográficos. Eles avaliaram as oportunidades de venda de 60 categorias de produtos em cada região, com base em projeções feitas por um grupo de estatísticos que fica na Índia. A conclusão é que há no País cinturões com potencial de crescimento do consumo muito acima da média anual de 1% a 3% projetada para o Brasil como um todo até 2024.

Esses cinturões de crescimento do consumo estão fora das regiões metropolitanas e agrupam cidades do interior do País que ficam num raio de 75 quilômetros a 200 quilômetros das capitais. Além da localização privilegiada, o traço comum entre esses bolsões de consumo é o grande número de famílias jovens das classes C e D, que ascenderam socialmente e ainda têm uma grande demanda insatisfeita.

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“Os cinturões têm potencial para ampliar o consumo num ritmo muito maior do que a capital e o interior como um todo”, explica Rogério Hirose, sócio da consultoria. No Estado de São Paulo, por exemplo, o consumo dos bolsões deve crescer um ponto porcentual acima do da capital e do interior do Estado como um todo até 2024. Na Bahia, essa diferença no ritmo de crescimento chega a 1,5 ponto e no Piauí é de 2 pontos porcentuais.

Localizada a 100 quilômetros da capital paulista, às margens das Rodovias Bandeirantes e Anhanguera – tida como polo tecnológico com sede de empresas importantes como IBM, Dell e ZTE –, Hortolândia é apontada pela consultoria como um cinturão com potencial de crescimento do consumo superior ao da cidade de São Paulo nos próximos anos. Além de empresas de tecnologia, a cidade diversificou sua vocação e atraiu companhias de outros segmentos, como a Bombardier, de vagões ferroviários, e a farmacêutica EMS. O município acaba de receber uma loja da catarinense Havan, que funciona como um ímã na atração de consumidores de cidades vizinhas.

Santo Antonio de Jesus, no Recôncavo Baiano, é apontado como outro bolsão de consumo. A 200 quilômetros de Salvador, a cidade tem 100 mil habitantes. Mas esse contingente chega a 1,6 milhão, por atrair consumidores de cidades vizinhas que vão às compras no comércio local, avaliado como o mais barato da Bahia.

Estrutura. Municípios com fatia maior de famílias das classes C e D podem ampliar as compras com velocidade 25% maior em relação a cidades com maior peso de famílias de alta renda na população, conclui o estudo. Também as cidades com maior proporção de jovens têm potencial para expandir o consumo num ritmo 18% maior do que aquelas com uma população mais velha.

“Há fatores estruturais no Brasil que ainda vão permitir ter um crescimento razoável do consumo até 2024”, afirma Stul. Entre os fatores, ele aponta o bônus demográfico. Em 2022, a fatia de brasileiros na população economicamente ativa, entre 18 e 50 anos, estará no pico da geração de renda e consumo. “As empresas que identificarem esses bolsões vão surfar na onda do crescimento”, diz Hirose.

Matéria publicada no jornal O Estado de São Paulo em agosto de 2015

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PARIS E LONDRES PREPARAM CONCORRIDAS SEMANAS DE DESIGN

Eventos, em setembro, estão entre os mais importantes do cenário internacional.

A princípio elas guardam em comum o objetivo de promover a cultura do design e suas conexões com a arquitetura, a arte, a decoração e todas as demais disciplinas criativas. Contam com eventos independentes, simultâneos e integrados por um programa oficial e, acontecem em paralelo, ou não, a uma grande feira comercial. São as semanas de design. Um sucesso de público – e crítica – que parece não conhecer fronteiras.

Na Europa, onde a prática surgiu de forma espontânea em torno do Salão do Móvel de Milão, a partir dos anos 60, raras são as capitais que não contam com uma semana dedicada ao tema em seus calendários. Apenas no mês que vem, serão dois os eventos a movimentar o final do verão europeu.

Dando a largada, em sua quinta edição, a Paris Design Week, que acontece de 5 a 12 de setembro, pretende reunir 300 expositores, espalhados por cinco locações bastante presentes no imaginário da cidade: as regiões de Saint-Germain-des-Prés/Opéra, Concorde/Etoile, Marais/Bastille e Barbès/Stalingrad. A cada noite, uma delas hospedará os lançamentos do dia, o que facilita bastante a visitação.

A oferta de eventos é vasta e mobiliza quase toda a capital francesa. Além dos endereços clássicos do design e da decoração locais, salas de exposições, oficinas e até restaurantes são tomados como locações, onde o público tem a oportunidade de encontrar criadores de diversas áreas. Além do design de mobiliário e da iluminação, arquitetura e moda são também assuntos contemplados.

Novidade desta edição, um circuito especial, desenvolvido em parceria com a Maison & Objet (feira que acontece de 4 a 8 de setembro), será dirigido aos profissionais de design de interiores e vai oferecer um roteiro de visitas a lojas de iluminação, revestimentos, cozinha e banho, bem como promover palestras com especialistas franceses do setor.

“Vamos contar com espaço ampliado para abrigar o nosso Fórum de Inspirações”, diz Philippe Brocade, diretor da Maison, que vê na reestruturação a possibilidade de apresentar de forma mais intensiva e abrangente os temas elencados pelos organizadores como dominantes a cada temporada. Nesta, por exemplo, a ideia de preciosidade promete ocupar o centro das reflexões. “O precioso é frequentemente associado com o ouro, com espelhos, com ornamentos. Mas ainda que o que é valioso o seja de fato, nem sempre algo precioso tem o mesmo valor para todos. Nossas mostras conceituais vão mostrar como isso se dá nos domínios do design e da decoração”, pontua ele.

Mas, para aqueles que pretendem se aventurar além dos endereços “bon chic, bon genre” do décor parisiense, a exposição now! Le Off, na descolada Docks – Cidade da Moda e do Design, situada às margens do Sena, com acesso direto pela estação Austerlitz – é endereço obrigatório. Além do icônico prédio, que por si só já vale a visita, com suas rampas externas verde-limão, que se assemelham a lagartas, o local é célebre por acolher a vanguarda do design francês, em mostras coletivas ou individuais.

Apagadas as luzes da festa parisiense, é a vez de Londres entrar em cena, de 19 a 27 de setembro, com seu festival que existe desde 2003 e é considerado um dos mais importantes do mundo. Cerca de 350 eventos foram organizados em torno do tema, em cinco bairros – Bankside, Brompton, Chelsea, Clerkenwell, Islington, Queens Park e Shoreditch Triangle –, e ancorados por alguns endereços-chave da cidade.

O mais importante deles, o Museu Victoria & Albert, além de sede do festival, costuma hospedar mostras temáticas, intervenções e palestras imperdíveis. As feiras são também ponto de referência, com destaque para a 100% Design, mais tradicional, a recém-chegada designjunction e a alternativa – e altamente recomendada – Tent London & Superbrands.

Essa última, um celeiro de novos talentos, apresentando a produção de designers emergentes, que, a exemplo dos franceses do Le Docks, são mais afeitos a um enfoque menos comercial do ofício de produzir objetos. Jovens que, aliás, são, a um só tempo, os alvos preferenciais e os grandes protagonistas das semanas de design mundo afora.

Matéria publicada no jornal O Estado de São Paulo em agosto de 2015.

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BANHEIROS: CINCO AMBIENTES COM CONFORTO TOTAL NO BANHO

Se você sonha com um spa particular, estes cinco projetos trazem muita inspiração, pois apostam tanto em materiais que tornam o espaço para lá de agradável quanto em equipamentos essenciais na hora de relaxar. A generosa luz natural completa o clima.

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Combinar aconchego com sofisticação foi a proposta do arquiteto Dado Castello Branco para este banheiro no ambiente planejado para a mostra Casa Cor São Paulo. O mármore special white cobre as paredes e destaca o tom quente da canela de demolição do piso (Casulo Design). Dispostas à frente das persianas (Unifex), as cortinas (Casa Fortaleza) deixam a claridade entrar, além de destacarem o pé-direito de 2,80 m. Uma antiga escada (Arnaldo Danemberg) serve de apoio para as toalhas (Trousseau). A banheira (Vallvé) fica sobre uma base elevada – feita do mesmo mármore da parede (Galleria Della Pietra), também usado para delimitar as diferentes áreas.

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Graças à área generosa – 22 m2 – do ambiente, os arquitetos Antonio Ferreira Junior e Mario Celso Bernardes puderam realizar o sonho da moradora: um banheiro integrado ao exterior da casa. Ligado ao jardim por meio de portas de vidro, o espaço ganhou aconchego devido à junção do piso de garapa com o tom acinzentado das paredes (Suvinil, cor Prata, ref. C161). Marcenaria executada pela Madeirarte. “Com portas espelhadas, o armário suspenso tem 15 cm de profundidade, medida ideal para guardar cosméticos”, explica Antonio Ferreira Junior. A bancada é de Silestone, e os metais, da Deca. “Se a ordem é desacelerar, não pode faltar uma banheira”, ensina Antonio. Esta já pertencia à moradora, mas modelos vitorianos similares podem ser encontrados na Doka Bath Works.

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Para fazer o verde da copa das árvores dominar a ambientação, o banheiro, projetado por David Bastos para a Casa Cor São Paulo, tem teto transparente (Casa dos Vidros). O astral campestre é reforçado pelos revestimentos: pedras de diferentes tamanhos (Villa Della Pietra) nas paredes; e teca – madeira resistente à umidade – no piso (We Do) e na bancada (CAP Marcenarias). “Descarte de pedreiras, as rochas dão volume às paredes e contrastam com a madeira”, define David Bastos. O ambiente fica resguardado por uma folha de vidro temperado. Sobre esta, a persiana de piaçava (Fibra Nativa) contribui para o visual rústico-chique. Iluminação da La Lampe.

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Protagonista da sala de banho, assinada por Léo Shehtman, o mármore italiano calacata gold (Villa Della Pietra) aparece no piso, nas paredes e na banheira. Projetado para a Casa Cor São Paulo, o espaço dispõe de um módulo de carvalho bem versátil: pode ser prateleira de apoio aos objetos ou fazer as vezes de banco. Quadro da Galeria Lume, vaso da Benedixt e vidros da Guardian. “O conceito clean foi colocado em prática em todos os detalhes, desde o desenho da banheira até a escolha dos metais e objetos”, conta Léo Shehtman. Esculpida no mármore, esta banheira exibe medidas amplas: 1,20 m x 2 m x 70 cm. O perfil delgado da torneira (Deca) arremata o visual com leveza.

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Integrado ao terraço e ao quarto do casal, o espaço de 31 m2, projetado pelos arquitetos Alice Martins e Flávio Butti, é um convite permanente ao descanso. Estrategicamente posicionado próximo da ala externa, o trecho envidraçado setoriza a área molhada. “A cobertura de vidro ajuda a iluminar o ambiente e permite contemplar o céu de dentro da hidromassagem”, conta Flávio Butti. Ali, as persianas da Luxafex (Luri) mantêm a privacidade quando necessário e controlam a entrada de luz natural. Sob os pendentes (Lumini), os pufes Campo (Ovo) criam um delicioso canto de estar. Piso de Tecnocimento (NS Brazil). Pastilhas de vidro preto (Vidrotil) forram o piso e as paredes do boxe, recurso que acentua a profundidade do local. Banheira da Jacuzzi.

Matéria publicada na revista Casa Claudia em Julho de 2015.

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PATRIMÔNIO PAULISTANO

No marcante Edifício Louveira, a reforma de um apartamento resgatou elementos originais, descaracterizados na intervenção anterior. Uma singela homenagem no mês em que o autor do prédio, João Batista Vilanova Artigas, faria 100 anos.

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Em 1992, o Edifício Louveira foi tombado pelo Conselho de Defesa de Patrimônio Arqueológico, Artístico e Turístico (Condephaat). No documento oficial, o motivo “exemplo da primeira fase da moderna arquitetura paulistana”.

Praça Vilaboim, número 144, São Paulo. Na ponta de uma das duas torres, a palavra “Louveira” se destca no paredão branco. Em 1946, quando esboçou os primeiros traços da obra, seu autor, João Batista Vilanova Artigas (1915-1985), negou-se a incluir janelas ali, como revia o Código de Obras e Edificações (COE). Ele até entregou o projeto de acordo com a regra, mas, em 1949, conforme o empreendimento subia, as empresas cegas tomavam forma – um indício de que aquela construção nasceria para questionar. Afinal, por que ter aberturas naquela face se os dois lados maiores e mais ensolaradas seriam rasgados por janelões?

Décadas depois, a sinuosa rampa que interliga os blocos segue pairando sobre o jardim, cujo verde das árvores se une ao da praça à frente, aberta a quem passa: espécie de resistência numa cidade que, em tão pouco tempo, acostumou-se a viver atrás de grades. E a fachada de incríveis caixilhos amarelos e vermelhos se tornou um marco paulistano – o convívio do arquiteto com escultores e pintores do Grupo Santa Helena influenciou tal ousadia numa época em que os prédios, até então, mantinham-se na paleta acinzentada. “É uma obra-prima”, diz Malou Von Muralt. Pesquisadora de arte, ela sabe bem o valor de um lugar como este.

Há um ano, quando adquiriu sua unidade, ela fez questão de trazer de volta toda a sua essência, já que a interferência anterior havia eliminado os tacos, os pisos de pastilhas cerâmicas e o jardim de inverno. “Atualizamos a planta para adequá-la ao perfil da moradora, porém recuperamos cada um desses elementos da forma mais fiel possível”, conta Rita Lo Scuito, conduziu a cuidadosa repaginação de oito meses. No processo, algumas paredes foram abaixo afim de integrar os ambientes e reforçar mais uma característica cara a Artigas: a incidência de luz “Janelas cobrem o imóvel de uma ponta á outra, e a posição do edifício traz sol des manhã e à tarde. Pensando nisso, derrubamos as divisórias no centro do estar e no quarto e, assim, conquistamos claridade e ventilação cruzada”, explica Rubens.

No dia 23 deste mês, o homem que marcou a arquitetura moderna paulistana no século 20 completaria um centenário. “A casa não acaba na soleira da porta”. Tampouco terminam seus ensinamentos, transmitidos de geração a geração, entre uma empena cega e outra.

“Fui o mais simples possível nas escolhas. Queria que a arte de Artigas se destacasse.”

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Na estante, a antiga campainha para chamar os empregados virou lembrança da reforma.

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Estes caixilhos foram refeitos conforme o desenho do mestre. As pastilhas (Jatobá) do piso se assemelham às originais, exibidas no pilar. “Por sorte, estavam escondidas sob a massa”.

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O jardim de inverno era algo comum na época da construção do Edifício Louveira. Recuperado, exibe plantas pendentes.

Matéria publicada na revista Arquitetura & Construção em junho de 2015 (por Amanda Sequin)

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NO PAÍS EM QUE LOUIS VUITTON É REI, NÃO SE ESCREVE “LUXO” EM OUTDOOR

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Histórias sobre a china e sua dualidade de riqueza e autoritarismo

Três décadas depois de enveredar, à sua maneira, pela trilha do livre mercado, a China ainda não definiu com clareza em que tipo de sociedade quer se transformar. Essa é a impressão que fica após a leitura de “A Era da Ambição”, do jornalista americano Evan Osnos, que viveu em Pequim entre 2005 e 2013.

Sem ser totalmente comunista ou capitalista, o país se situa numa fronteira pouco nítida entre os dois regimes antagônicos por natureza e definição. Numa metáfora feliz, Osnos resume a contradição: “Para sobreviver, o Partido Comunista Chinês abandonou o evangelho, mas se apegou aos santos”. Ou seja, embora tenha rejeitado na prática a teoria de Karl Marx, manteve o retrato do camarada Mao Tsé-Tung (1893-1976) em locais públicos.

Tal contorcionismo ideológico se manifesta, na vida cotidiana, na discrepância entre realidade e retórica, como o fato de o maior mercado mundial da Louis Vuitton coexistir com tentativa de proibição do uso da palavra “luxo” em outdoors.

O autor deixa claro que, apesar de não ser possível vislumbrar o desfecho dessa história, estamos diante de uma das mais intensas transformações já registradas no mundo. Em sua comparação, trata-se de um fenômeno cem vezes maior e dez vezes mais rápido do que a Revolução Industrial, que criou a Grã-Bretanha moderna e as fundações do capitalismo.

Osnos não cansa o leitor com uma enxurrada de estatísticas, que seriam supérfluas, pois apenas reforçariam a ideia que se faz da China contemporânea: a de um país relativamente pobre que em poucos anos de crescimento exponencial se transformou em motor da economia do mundo.

Apenas dois exemplos dão conta do recado: entre 1978 e 2013, a renda média anual dos trabalhadores foi multiplicada por 30, passando de US$ 200 para US$ 6.000; e em 2012 o país se tornou mais urbano do que rural, depois de construir o equivalente a uma Roma a cada duas semanas.

A prosperidade, combustível da “era da ambição” a que Osnos se refere, tem como contraponto o autoritarismo.

Quanto mais os chineses ascendem economicamente, mais liberdade demandam, sobretudo a liberdade de criticar o governo. E quanto maior essa pressão popular, maior o esforço do Partido Comunista para contê-la. Até o momento, as lideranças políticas têm contornado a situação, ao combinar força bruta e propaganda persuasiva. A incógnita é até quando será possível abafar a voz de dissidentes e descontentes em geral.

A internet vem se revelando um dos principais ambientes onde se disputa esse cabo de guerra. Em meados dos anos 2000, a China ergueu uma muralha virtual que impede os usuários de acessar reportagens estrangeiras desfavoráveis a políticos ou denúncias de abusos de direitos humanos. Além disso, emprega um exército em atividades de propaganda, com um funcionário para cada cem cidadãos.

O grande achado de Osnos foi ter contado a história a partir da perspectiva de pessoas, fossem funcionários públicos, estrelas dissidentes, líderes estudantis, novos empresários e, sobretudo, anônimos com quem ele cruzava o caminho. Dessa maneira, o autor conseguiu o distanciamento necessário para criticar a China sem cair na tentação de “julgar o país com severidade excessiva em questões que se opõem aos meus valores”.

Foi uma decisão acertada porque, caso contrário, o livro poderia soar tão chato e previsível quanto a propaganda liberal ou, o que seria pior, tão ingênuo e apologético quanto a obra de um autor disposto a ver na exuberância chinesa um caminho ideológico aceitável.

Matéria publicada no jornal Valor Econômico em abril de 2015 (por Oscar Pilagallo)

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AOS 70 ANOS, FABRICANTE DE MÓVEIS SE REINVENTA

Líder Interiores investe em coleção de móveis assinados por estúdios da nova geração do design.

Aos 70 anos, a Líder Interiores, tradicional fabricante de móveis, resolveu se reinventar. Dando continuidade a um processo iniciado no ano passado, com a fundação do seu estúdio design, produtos exclusivos e assinados surgem agora como ponta de lança entre as novidades da empresa.

“O cuidado artesanal aliado a constantes investimentos em alta tecnologia são dois permanentes estímulos à criatividade dos nossos designers”, diz o gerente de marketing da empresa, Tiago Nogueira. Nessa nova fase, segundo ele, a marca de pretende se posicionar não apenas como uma fabricante de móveis, mas efetivamente, como referência de design.

Para tanto, a empresa vem investindo em afinadas parcerias. Além do Nada Se Leva, dos designers André Bastos e Guilherme Leite Ribeiro, atuais diretores de criação da marca, dois novos estúdios acabam de se unir ao time: o do arquiteto Pedro Lázaro e o Lattoog. Com peças deles e também do Estúdio Líder, a coleção de 2015, já nas lojas, conta com 60 que exibiam estruturas de inox. “Substituímos o inox pela madeira maciça, criando um berço para a estrutura estofada”, conta Bastos.

Também dignas de nota, sobretudo por sua delicadeza, a mesa lateral Mari, do Lattoog, nos traz a lembrança de antigos manequins de ferro; enquanto a chaise Mariana, com encosto reciclável, de Pedro Lázaro, pode ser utilizada como espreguiçadeira e como banco.

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O Sofá Eclipse (a partir de R$ 13200)

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A estante Cut (a partir de R$ 3870)

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Mesas laterais Mari (a partir de R$ 1030 cada)

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A escrivaninha Leg (a partir de R$ 2700)

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A poltrona Musset, do estúdio Nada Se Leva (a partir de R$ 4020)

Matéria publicada no jornal O Estado de São Paulo em  julho de 2015

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BRASILEIRO COMPRA PÃO E VAI MENOS À PADARIA

O pãozinho francês saído do forno é o mais querido do brasileiro, mas os pães industrializados estão ganhando espaço com a redução da ida do consumidor aos pontos de venda e o aumento de preço do trigo. A categoria especial, que inclui grãos integrais ou ingredientes como fibras e vitaminas, é a de mais rápida expansão no país. O Nordeste é a região em que o consumo mais cresce, mas no Rio está a maior fatia de consumidores.

“Enquanto o pão industrializado cresce em volume e em valor, o consumo de pão fresco diminui devido ao aumento de preço ­ a farinha de trigo, cotada em dólar, está mais cara ­ e à redução da visita do consumidor às padarias”, diz Carolina Andrade, executiva de marketing da Kantar WorlPanel.

A maior parte dos lares continua consumindo os dois tipos, mas cada vez menos pessoas vão diariamente à padaria. Com isso, a categoria de pães industrializados cresce. “É prático, conveniente e complementar”, diz Claudio Zanão, presidente da Associação Brasileira das Indústrias de Biscoitos, Massas Alimentícias, Pães e Bolos Industrializados (Abimapi).

O pão artesanal está presente em 95% dos lares, mas vem perdendo espaço pelo menos desde 2011. O industrializado está em 76% das mesas brasileiras ­ ganhou cinco pontos de participação de mercado em três anos. “O consumidor está fazendo escolhas, colocando no carrinho o produto de melhor preço, com maior durabilidade e que mais contribua para a saúde”, diz Carolina. Em participação de mercado, o leste e o interior do Rio de Janeiro são líderes em consumo de pão industrializado, mas é no Nordeste que as vendas mais cresceram no ano passado, puxadas principalmente pela marca Plus Vita, de pães especiais do grupo mexicano Bimbo.

Matéria publicada no jornal Valor Econômico (por Tatiane Bortolozi)

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