Data: 09/11/2010, das 8h30 às 18h
Local: Hotel Renaissance - Al. Santos, 2.233 - São Paulo, SP (veja mapa)

 

CENÁRIO

 

Mercado

Daniel Salles
Revista Veja São Paulo – 02/12/2009

O aumento gradual da temperatura na Terra criou uma preocupação inédita com o meio ambiente nos últimos anos. Nesse cenário, em que pega bem mostrar-se interessado na salvação do planeta, pipocam iniciativas para supostamente minimizar o aquecimento global. Criado em 1998 pela ONG americana U.S. Green Building Council, o Leadership in Energy and Environmental Design (Leed) é o mais importante certificado para atestar a qualidade ambiental tanto de prédios comerciais e residenciais quanto só de escritórios.

Em outubro, a sede brasileira do laboratório alemão Boehringer Ingelheim tornou-se o primeiro escritório a passar pela fase de certificação do selo Leed Gold (há ainda a classificação platinum). "Cumprimos todas as exigências da ONG", afirma Sérgio Pacheco, gerente de inovação e estratégia da companhia e responsável pela implementação do projeto. "Estamos aguardando apenas a auditoria final." Pleiteado em todo o mundo por mais de 29 000 empreendimentos - 148 dos quais no Brasil-, o selo foi concedido a apenas dez no país, cinco deles em São Paulo. A sede da Boehringer Ingelheim ocupa um andar e meio de uma das duas torres do complexo Rochaverá Corporate Towers, no Brooklin, que também é considerado pela ONG americana como ecologicamente correto. Nenhum dos outros escritórios do prédio, no entanto, tem o selo verde.

A ideia surgiu no começo do ano, em uma das reuniões do comitê criado para planejar a reforma da antiga matriz brasileira da Boehringer Ingelheim, em Santo Amaro. “Chegamos à conclusão de que seria mais vantajoso mudar de endereço e investir na criação de um espaço ecologicamente correto”, conta Pacheco. As principais características verdes do novo escritório, de 2 000 metros quadrados e que concentra 257 funcionários, são as seguintes:

  • O uso de copos e colheres descartáveis não é permitido. Canecas, pratos e talheres ficam à disposição dos empregados em uma cozinha montada no hall de entrada. Após o uso, a louça utilizada deve ser lavada por eles mesmos.
  • As luzes do teto acendem-se automaticamente, para aproveitar a iluminação natural, e 34 sensores de calor impedem que o ar-condicionado funcione em áreas que estejam vazias. Com as medidas, a conta de luz baixou de cerca de 12 000 para 7.200 reais mensais.
  • O desperdício de papel foi contido com a instalação de um sistema que obriga a todos a se locomover até a impressora para autorizar cada impressão. A economia semanal com esse item foi de 70%.
  • Existem apenas 200 estações de trabalho, com computador e telefone. Resultado: todos os dias, cerca de vinte pessoas precisam trabalhar em casa. 'Não faz sentido obrigar os funcionários a realizar na empresa tarefas que poderiam ser executadas em sua residência', explica Pacheco. 'Com isso, contribuímos para a melhora do trânsito e da poluição'.

Apesar de sair mais caro, construir um prédio verde pode ser vantajoso a longo prazo. 'Os gastos com água e energia elétrica de um imóvel como esse são 35% mais baixos', diz Nelson Kawakami, diretor executivo do braço brasileiro do Green Building Council. A expectativa da Boehringer Ingelheim é recuperar os 5 milhões de reais desembolsados com a nova sede em até três anos.

E tem mais: com o objetivo de melhorar o desempenho dos funcionários, foram montadas uma sala de massagem e outra para jogar videogame, além de uma biblioteca com cerca de 1 000 títulos, emprestados pela Livraria Cultura. 'Nossa meta é fazer com que as pessoas terminem o expediente mais contentes que no início do dia', afirma Martin Nelzow, diretor geral do laboratório no país.

 

Revista Veja Dez/2009 – SEU CHEFE AINDA SERÁ ASSIM

Os profissionais distantes dos cuidados socioambientais já estão definitivamente fora do jogo.

O executivo alheio ao movimento de sustentabilidade flerta com a irrelevância e o fracasso. Nem sempre foi assim, convém lembrar. Houve ondas diferentes de preocupação dos profissionais com o meio ambiente – a postura mudou no ritmo das descobertas científicas e de pressão da sociedade. Nos anos 1980 e início dos 1990, quando a hoje chamada responsabilidade social ainda era confundida com filantropia e mera maquiagem verde, os líderes das companhias simplesmente defendiam o mecenato, e assim dormiam tranquilos. Na segunda etapa, de meados dos anos 1990 a meados dos anos 2000, houve a explosão da ecoeficiência e da prevenção dos riscos. Dentro dos escritórios e das fábricas, cresceu o movimento de inclusão de funcionários e outras partes interessadas nas políticas de sustentabilidade. Do ponto de vista do marketing, divulgava-se o fim dos excessos. Na França, por exemplo, toda publicidade que incentivasse o uso exagerado de carros foi proibida.

Vive-se hoje, na definição da consultora francesa Élisabeth Laville, do grupo Utopies, a "responsabilidade social empresarial 2.0", da mesma forma que se usa a expressão web 2.0 para definir o momento atual da internet. "É uma revolução apenas iniciada", diz Élisabeth.

Do que se trata? Incorporar, verdadeiramente, à estratégia da empresa e ao seu modelo econômico, uma abordagem orientada aos riscos de danos ecológicos e à imagem corporativa. Além disso, costuram-se oportunidades de mercado atreladas a boas e responsáveis soluções sociais e ambientais. Um caso emblemático é o da British Petroleum, a BP, com sua estratégia Beyond Petroleum (Além do Petróleo), que não deseja mais ser vendedora de óleo, e sim de energia, com a promessa de, em trinta anos, oferecer metade da energia a partir de fontes renováveis.

Outro caso de estudo é o da General Electric (GE), que, com seu programa Ecomagination, assumiu publicamente o compromisso de dobrar o orçamento de pesquisa e desenvolvimento em tecnologias verdes entre 2005 e 2010. O executivo-chefe da GE, Jack Immelt, virou ícone entre as lideranças empresariais verdes com um discurso sincero. "O que nós queremos é ganhar dinheiro", dizia Immelt, no início do processo, em 2004. O tom era dado pelo slogan "Green is green" (verde é verde, em referência à cor que simboliza tanto a sustentabilidade quanto o dólar americano). Hoje, a linha desenvolvida pela GE, a Ecomagination, tem oitenta produtos – em 2005 eram apenas dezessete. Em 2008, as receitas dessa família de negócios foram de 17 bilhões de dólares – menos de 10% do total, mas ainda assim um feito quando se considera que o programa tem apenas cinco anos de vida. Além disso, o faturamento da Ecomagination cresce três vezes mais rápido que o dos outros produtos da GE.

Mas poucos têm o espaço e as oportunidades que Immelt teve – a maioria dos executivos realmente verdes, ressalve-se, não está no topo das empresas. Há muito ainda a fazer, embora já não exista recuo possível. Atenção ao meio ambiente e a tudo o que o cerca é, prioritariamente, sinônimo de boa imagem para as empresas. De acordo com o estudo "A cadeia da sustentabilidade", realizado no início do ano pela consultoria Deloitte com mais de 100 empresas brasileiras de grande porte, 84% apontaram a imagem como a grande favorecida pelo bom comportamento socioambiental. Em segundo lugar, apareceu a conquista de novos mercados (59%) e, em terceiro, a produtividade (58%). "Se fosse apenas uma questão de imagem, ainda assim seria vantajoso investir em negócios sustentáveis", afirma o americano Joe Sellwood, responsável pela operação na América Latina da ONG AccountAbility, que tem sede em Londres, na Inglaterra, e trabalha no fomento de boas práticas de gestão nas empresas e governos. Ao longo desta reportagem, VEJA traça o perfil de três jovens lideranças empresariais coladas ao novo modelo.

Daniela De Fiori, paulista grávida do primeiro filho, tem 35 anos e vive de mãos dadas com as iniciativas que defende como vice-presidente de sustentabilidade do Walmart. Ela baniu o uso de sacolas plásticas em sua casa, boicota açougues que vendem carne sem certificado de procedência e adota a carona solidária. Quando vai sozinha ao trabalho - enquanto a barrigona ainda lhe permite dirigir -, acha natural chegar ao escritório a bordo de um carro flex com o porta-malas transbordando de lixo orgânico, pois o prédio onde mora só recicla papelão. A solução é levar os detritos para o posto de reciclagem do trabalho.

O Walmart é o líder varejista no mundo e a terceira maior rede de supermercados no Brasil. Tornou-se, hoje, símbolo de responsabilidade ambiental. Das 404 lojas que a empresa tem espalhadas pelo Brasil, 140 praticamente não mandam mais lixo orgânico para aterros sanitários - em vez disso, ele é enviado para usinas de compostagem, onde vira adubo. A partir de 2010, a rede construirá apenas hipermercados 100% ecoeficientes - hoje são quatro. Isso quer dizer que as lojas serão erguidas segundo preceitos verdes, com teto rebaixado para economizar ar condicionado e paredes de vidro que permitam a entrada de luz natural.

O grande desafio é convencer os consumidores de que produtos com selo verde não são mais caros do que os tradicionais. "Foi preciso muita criatividade, mas hoje temos nas prateleiras mais de 2 000 produtos sustentáveis", diz. No topo da lista dos mais vendidos está o cobertor feito com fibras de garrafa PET.

Globalmente, o Walmart destacou-se ao ser o primeiro dos grandes varejistas a participar do movimento de boicote aos fornecedores que desrespeitam o meio ambiente, seja criando gado ou plantando soja em áreas ilegais da Amazônia, seja usando trabalho escravo. Desse movimento, iniciado em junho no Brasil, surgiu o pacto de sustentabilidade, que já conta com mais de 300 membros e impõe aos fornecedores duros compromissos. Os fabricantes de detergente, por exemplo, terão até 2011 para diminuir em 70% a quantidade de fosfato na fórmula do produto. A substância é a maior responsável pela proliferação de algas nos rios, que consomem o oxigênio e matam os peixes.

 

Design Sustentável

por Luiz Fernando do Valle

Vivemos em um mundo onde a forma tem um papel importante como construtora de imagem e como percepção de modernidade e qualidade. Bonito, prático, funcional, moderno, durável e útil são algumas características inerentes à nossa aceitação ou não de determinados produtos.

O termo design sustentável surgiu recentemente com o propósito de trazer um novo conceito que incluísse os significados das duas palavras. O termo design significa o ato de projetar, desenvolver ou criar, buscando sempre a evolução do que já existe. Já a palavra sustentável, no novo conceito aplicado a ela, é fazer algo considerando os seus três aspectos: economicamente viável, socialmente justo e ambientalmente correto – O Triângulo da Sustentabilidade.

Produtos concebidos dentro da visão do design sustentável devem respeitar a preocupação com o meio ambiente, diminuindo, assim, os problemas da extração da matéria-prima e da energia necessária para sua fabricação. Esses produtos também devem ser acessíveis economicamente ao maior número de pessoas possível. Tratar os aspectos sociais de forma mais ampla. Por último, têm também que cumprir uma função fundamental e básica: trazer o bem-estar e a satisfação a quem os utiliza.

O conceito dos 3R(erres) (Reduzir, Reutilizar e Reciclar) deve estar presente nos produtos desenvolvidos dentro da visão do design sustentável. Esses produtos, quando na sua fase de concepção, devem ser elaborados já para possíveis reutilizações para sua função principal. Com uma maior durabilidade que evite baixa utilização e uso de materiais que permitam a reciclagem.

O design sustentável projeta no presente com olhos no futuro. Essa afirmação procura colocar os dois tempos, presente e futuro, existindo simultaneamente, pois as necessidades que geraram a sua fabricação devem considerar todos os aspectos envolvidos e seus impactos no agora e no depois.

As fases do ciclo de vida de um produto são a extração das matérias-primas, a produção com seu consumo de energia, a distribuição até o consumidor final, a sua utilização e, por fim, o seu destino final. O principal objetivo do design sustentável é reduzir ao máximo o impacto ambiental desse produto em todas as suas fases.

Li recentemente em um site um provérbio dos índios americanos Lakota Sioux que dizia: "Não herdamos a terra dos nossos pais, pedimo-la emprestada aos nossos filhos". Acredito que essa frase traduza, de uma forma muito adequada, a nossa responsabilidade com as gerações futuras, e como devemos estar atentos ao definir nossas necessidades presentes.

Um bom exemplo da aplicação do design sustentável em um produto muito importante em nossas vidas são as residências, que tanto na sua fase de construção como depois, na sua utilização, causam grandes impactos ao meio ambiente.

Se houver em ambas as fases o uso desse conceito, podemos produzir essas residências com baixo impacto ambiental, os empreendimentos sustentáveis, e permitir que os seus futuros moradores se beneficiem da vantagem do baixo consumo de recursos naturais com a sua respectiva redução de custo para mantê-las.

O design sustentável preocupa-se com os materiais e a energia usados, assim como com a sua funcionalidade e destino final, mas é o desenho final da forma que melhor traduz como as pessoas perceberão e aceitarão esse produto.

Na construção civil temos um grupo de profissionais que se preocupam com a relação do desenho e a funcionalidade com a percepção de quem irá usar o imóvel. Isso é chamado de Arquitetura da Felicidade.

Esses profissionais, geralmente arquitetos, procuram projetar as construções de residências e escritórios buscando uma nova perspectiva das necessidades de quem lá irá morar ou trabalhar. A felicidade é algo que pode ser facilitado através do desenho do projeto proposto. Cuidados com o conforto ambiental e a estética ajudam, e muito, a criar esses ambientes saudáveis.

Portanto, projetar um produto é mais do que só resolver suas características e desenho final, é poder avaliar o seu impacto no meio ambiente e na felicidade dos seus usuários.

"Há quem ainda acredite que a moda da sustentabilidade vai passar. E prefira, de modo cético ou cínico, ficar aguardando isso acontecer, apesar de todas as evidências em contrário. Hoje não dá para ser empresa como há 20 anos. As corporações estão sendo pressionadas a mudar, seja porque seus acionistas estão mais críticos, seja porque a nave-mãe da Terra já dá sinais claros de que não suportará tanta gente consumindo recursos".
-Andrew Savitz, autor de A Empresa Sustentável.

 

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