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PATRIMÔNIO PAULISTANO

01/09/2015

No marcante Edifício Louveira, a reforma de um apartamento resgatou elementos originais, descaracterizados na intervenção anterior. Uma singela homenagem no mês em que o autor do prédio, João Batista Vilanova Artigas, faria 100 anos.

Em 1992, o Edifício Louveira foi tombado pelo Conselho de Defesa de Patrimônio Arqueológico, Artístico e Turístico (Condephaat). No documento oficial, o motivo “exemplo da primeira fase da moderna arquitetura paulistana”. Suas cores e o jardim entre os blocos conquistaram Malou (retrato).

Praça Vilaboim, número 144, São Paulo. Na ponta de uma das duas torres, a palavra “Louveira” se destca no paredão branco. Em 1946, quando esboçou os primeiros traços da obra, seu autor, João Batista Vilanova Artigas (1915-1985), negou-se a incluir janelas ali, como revia o Código de Obras e Edificações (COE). Ele até entregou o projeto de acordo com a regra, mas, em 1949, conforme o empreendimento subia, as empresas cegas tomavam forma – um indício de que aquela construção nasceria para questionar. Afinal, por que ter aberturas naquela face se os dois lados maiores e mais ensolaradas seriam rasgados por janelões?

Décadas depois, a sinuosa rampa que interliga os blocos segue pairando sobre o jardim, cujo verde das árvores se une ao da praça à frente, aberta a quem passa: espécie de resistência numa cidade que, em tão pouco tempo, acostumou-se a viver atrás de grades. E a fachada de incríveis caixilhos amarelos e vermelhos se tornou um marco paulistano – o convívio do arquiteto com escultores e pintores do Grupo Santa Helena influenciou tal ousadia numa época em que os prédios, até então, mantinham-se na paleta acinzentada. “É uma obra-prima”, diz Malou Von Muralt. Pesquisadora de arte, ela sabe bem o valor de um lugar como este.

Há um ano, quando adquiriu sua unidade, ela fez questão de trazer de volta toda a sua essência, já que a interferência anterior havia eliminado os tacos, os pisos de pastilhas cerâmicas e o jardim de inverno. “Atualizamos a planta para adequá-la ao perfil da moradora, porém recuperamos cada um desses elementos da forma mais fiel possível”, conta Rita Lo Scuito, conduziu a cuidadosa repaginação de oito meses. No processo, algumas paredes foram abaixo afim de integrar os ambientes e reforçar mais uma característica cara a Artigas: a incidência de luz “Janelas cobrem o imóvel de uma ponta á outra, e a posição do edifício traz sol des manhã e à tarde. Pensando nisso, derrubamos as divisórias no centro do estar e no quarto e, assim, conquistamos claridade e ventilação cruzada”, explica Rubens.

No dia 23 deste mês, o homem que marcou a arquitetura moderna paulistana no século 20 completaria um centenário. “A casa não acaba na soleira da porta”. Tampouco terminam seus ensinamentos, transmitidos de geração a geração, entre uma empena cega e outra.
“Fui o mais simples possível nas escolhas. Queria que a arte de Artigas se destacasse.”

Matéria publicada na revista Arquitetura & Construção em junho de 2015 (por Amanda Sequin)

01 - Fachada do Edifício Louveira
02 - Na estante, a antiga campainha para chamar os empregados virou lembrança da reforma
03 - Os caixilhos foram refeitos conforme o desenho do mestre. As pastilhas (Jatobá) do piso se assemelham às originais, exibidas no pilar. “Por sorte, estavam escondidas sob a massa”
04 - O jardim de inverno era algo comum na época da construção do Edifício Louveira. Recuperado, exibe plantas pendentes