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ALDEIA GLOBAL

15/02/2016

Concebida como uma tribo, coleção almeja uso integrado de seus móveis

Eles foram criados por um canadense de origem japonesa, que se reveza entre seus escritórios em Tóquio e Milão. Foram produzidos por uma empresa sediada em Cingapura, que emprega na sua produção componentes feitos à mão nas Filipinas. Lançados na edição 2015 da feira Maison & Objet Asia, em Cingapura, já foram apontados como um dos pontos altos do Salão do Móvel de Milão, que aconteceu em abril. E, mais recentemente, roubaram a cena na vanguardista galeria Mint, no centro de Londres, durante a última edição do London Design Festival.

Por qualquer ângulo que se olhe, a realidade salta aos olhos: estejam eles onde estiverem, apesar de toda sua simplicidade, os móveis da coleção Tokyo Tribe, projetados pelo estúdio Nendo, do designer Oki Sato, estão, seguramente, entre os mais globalizados do design. Condição, aliás, que se ajusta com precisão ao conceito de comunidade global imaginado por seu criador.

“Sem maiores pretensões, tudo o que busquei foi compor uma série de móveis que dessem convergir e funcionar em conjunto, criando a sensação de uma ‘tribo’ pequena. Mas forte e unida. Como na vida, acredito que juntos é sempre possível produzir mais e melhor”, conta Sato, um dos designers de maior evidência da atualidade, que apenas no ano passado lançou mais de 100 objetos no mercado.

Uma grana tão diversificada de itens, que vai de poltronas espelhadas a relógios, de sapatos a caixa de chocolate, colocando em evidência não apenas sua extrema versatilidade, mas, igualmente, sua notável capacidade de revitalizar a tradição japonesa, com uma bem dosada irreverência, como bem ilustram os móveis da Tokyo Tribe.

O desenho seco e rigoroso, de inegável apelo minimalista, aposta na expressão advinha do contraste dos materiais e agrada em cheio aos amantes do design. Já a incorporação de motivos decorativos às peças e seu formato relativamente compacto – em especial, em tempos de espaço reduzidos – apontam na direção da arquitetura de interiores, denunciando o desejo de ampliar suas possibilidades nos mais variados tipos de ambientes.

Golpes de mestre, a apropriação de um elemento tão simples como a tradicional cesta de palha trançada à mão, presente em praticamente todos os itens da coleção (ao todo são 22 peças, entre bancos, cadeiras, mesas e prateleiras) merece ser olhado com a devida atenção. Raramente utilizadas pelo designer de maneira convencional, são elas que injetam um ar de inusitado, de frescor à coleção. Ainda mais se considerarmos a simplicidade formal e cromática de suas peças.

Além de acompanhar mesas e bancos, ampliando o raio de ação dos móveis, alguns cestos aparecem virados de cabeça para baixo, aparentemente, não por outro motivo a não ser ocultar determinadas partes das peças. Outros, ocupam o lugar de prateleiras, ampliando a área de armazenamento nas estantes. E há ainda aqueles que, devidamente estofados, deram origem a apoio para as costas, em algumas das cadeiras e poltronas.

Mas, para além de toda sua originalidade Tokyo Tribe surpreende também por seu inspirado mix de materiais: a maioria dos quadros, por exemplo, é de carvalho maciço. O acabamento de alguns dos tampos foi feito à base de gesso misturado à areia vulcânica, produzindo uma textura bastante particular e algo enigmática. Sem falar na maestria e a delicadeza com as quais a fibra de bambu aparece trabalhada nas cestas tecidas pelos artesãos filipinos.

“Devo muito do sucesso da coleção à + industry. Sem ela não seria possível obter uma fusão tão efetiva de técnicas industriais e elementos artesanais”, pontua o designer, satisfeito com o trabalho conjunto realizado com a empresa de Cingapura que emprega em seus projetos de componentes provenientes de diversos países asiáticos.

“O que mais me chamou a atenção foi a natureza colaborativa do projeto tem nessa equação. Posso afirmar com segurança que Tokyo Tribe foi uma coleção construída a muitas mãos e isso, sem dúvida, colaborou para o sucesso do projeto”, conclui Sato.

Matéria publicada pelo jornalista Marcelo Lima do O Estado de São Paulo em 07 de fevereiro de 2016

1° FOTO. Peças de coleção Tokyo Tribal; no detalhe, o encaixe do cesto no tampo da mesa.
2° FOTO. Estante com cesto em um lugar de prateleira, para aumentar a área de armazenamento
3° FOTO. Poltrona tem cestos empregados com apoio para as costas
4° FOTO. Acoplados aos móveis, cestos desempenham diferentes funções