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REFORMA MODERNIZOU SOBRADO SEXAGENÁRIO SEM ABRIR MÃO DA HISTÓRIA

08/03/2016

A possibilidade de aprimorar o sobrado sexagenário, desfigurado após sucessivas intervenções, agradava ao arquiteto e à sua mulher, filha dos donos. Mas calou forte no coração e definiu a escolha pela reforma a infância alegre que a moça passou ali

Os fatos eram claros, mas não decisivos. A localização: um bairro tranquilo e agradável, ao lado de uma área tombada de São Paulo. Ali mesmo onde décadas atrás o arquiteto e engenheiro Jarbas Karman (1917-2008) fez loteamentos e ergueu amplas casas para famílias da época viverem confortavelmente. O imóvel: umsobrado enxuto, organizado em três patamares no terreno de 168 m² e bastante alterado após várias adaptações para servir ao comércio.

Quando Marina, cientista política e mulher do arquiteto Gabriel Grinspum (do Ateliê GR de Arquitetura e Urbanismo), ficou grávida, a questão enfim se apresentou – com certeza a família em gestação caberia melhor numa morada com quintal, sol e espaço livre, do que num apartamento compacto. E os pais da moça, gentilmente, se dispunham a ceder a residência descrita acima (na qual viveram por anos, mas que permanecia alugada) para o futuro trio habitar – curiosamente, a edificação abrigava na ocasião o instituto idealizado pelo próprio Karman, consagrado pela atuação no ramo hospitalar, e que planejara também aquela vizinhança repleta de verde e ruazinhas sinuosas. Mas… seria preciso reformá-la.

Com olhar de especialista, Gabriel avaliou a situação. Encontrou dificuldades e potenciais. Acrescida ao original, a edícula roubava o pouco de jardim existente. Um vasto banheiro dividido ao meio definia duas suítes destrambelhadas. Placas de ardósia substituíam os antigos taquinhos e portas de vidro espelhado envelopavam as fachadas. Resumindo, não se vislumbrava uma empreitada simples, ao mesmo tempo que a renovação precisava ter baixo custo para caber nos planos do casal. Como decidir? Nessa hora, a emoção aflorou eliminando o dilema. “Fui percebendo os vínculos: minha mulher se lembrava da velha escada de granilite, reconhecia o escritório do pai…”, enumera o arquiteto, que assumiu o projeto e a obra visando retomar qualidades originais da construção e alterá-la com simplicidade e economia. Assim, o anexo dos fundos veio abaixo, muitos ambientes retomaram suas configurações iniciais e o patamar inferior, repleto de pilotis e vigas, tornou-se menos fragmentado.

Foram oito meses de visitas diárias ao local e embates contínuos entre razão e emoção. A objetividade venceu muitas vezes, e a reforma se ateve ao orçamento. Mas o coração saiu vitorioso de algumas batalhas, como a da cobertura. Gabriel não se conformou diante da velha estrutura de madeira e telhas de fibrocimento e fez valer sua sensibilidade. “Quis deixar o conjunto seguro e confortável, mas também bonito, num bloco único”, explica sobre a adoção da opção metálica e sem beirais que hoje protege a construção e sua jovem família.

Matéria publicada pela jornalista Joana Baracuhy da Arquitetura e Construção em 01 de março de 2016

1° FOTO. A fachada da morada agora modernizada.

2° FOTO. Puro charme: Gabriel pintou o teto com as cores primárias (há ainda um trecho azul), seguindo as experimentações feitas pelo mestre moderno Le Corbusier (1887-1965). Na foto, a pequena Cora tenta convencer a mãe, Marina, a brincar com plantas e pedrinhas, mais embaixo. No piso mistura aplicada a frio (a mesma da entrada) pela TBI Asfalto e Pavimentação.

3° FOTO. Uma vez removido o enorme anexo da parte de trás do terreno, criou-se um amplo jardim. Na base da casa a estrutura não mudou, mas algumas paredes vieram abaixo, revelando três pilotis antes encobertos pela alvenaria. nesse processo coube ainda uma agradável varanda.

4° FOTO. Reforma modernizou sobrado sexagenário sem abrir mão da história.

5° FOTO. Os quadrados da argamassa prensada (39 x 39 x 5 cm, da NeoRex) garantiram a entrada de claridade na morada e dispensaram gastos com esquadrias grandes e novas. Presente por em toda parte, esse elemento vazado pre-moldado dá unidade ao projeto. Na entrada, a pavimentação deu espaço à grama. Cadeiras da Maria Jovem.

6° FOTO. Bem implantada, a casa recebe bastante sol nas duas fachadas principais, a leste e a oeste (onde fica este janelão pivotante). Cadeira de balanço e armário da Desmobília, sofá e tapete da By Kamy, gravuras da Mônica Filgueiras Galeria, pedestal da Futura Iluminação.

7° FOTO. Adotadas pelo antigo inquilino, as placas de ardósia conquistaram o arquiteto-morador pelo preço acessível e visual discreto – e passaram a forrar de todos os espaços. Sua cor ditou a cor da tinta aplicada nas esquadrias de ferro (Iron Logic).

8° FOTO. Sem função definida, o patamar inferior se encontrava compartimentado, com vigas baixas e pilares atrapalhando a circulação. No novo projeto, seus valiosos metros quadrados foram reorganizados e liberados dessas interferências, com um lugar para uma lavanderia (atrás da parede solta, ao fundo) e para este amplo escritório/ateliê onde hoje Gabriel pode trabalhar e Marina, experimentar seus dotes na pintura.

9° FOTO. Único pedido de Marina, a banheira (Roca) é a estrela da sala de banho. Sua separação do boxe definido por uma chapa fixa incolor – permite que duas pessoas se lavem ao mesmo tempo. Em nome da privacidade, nesse trecho de caixilhos alternam vidro incolor, jateado e chapas de ferro pintadas (no mesmo cinza-grafite).

10° FOTO. As alterações visaram recuperar as boas soluções de planta original, descaracterizada após sucessivas obras. Térreo e superior voltaram á forma antiga e o andar de baixo foi redesenhado. Da esquerda para a direita: pavimento inferior (68 m²), e primeiro pavimento (66 m²).