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PROJETO REAPROVEITOU O ENTULHO DA OBRA

02/06/2016

Nesta casa paulistana, elementos construtivos pouco usuais ajudam a compor uma linguagem própria. Aqui, arquitetura e sustentabilidade assumem forma nada convencional

Na sala de estar, as lajes aparentes de concreto pré-moldado formam par com a estrutura metálica pintada de laranja. A parede atrás da escada exibe escombros da antiga construção convertidos em concreto ciclópico. As almofadas, a mesa de centro e os revisteiros são da Futon Company.

Acordar cedo não é sacrifício para a dona desta casa, uma fotógrafa e editora de imagens acostumada a se manter atrás das lentes. “A vista para o nascer do sol é uma das atrações do endereço”, brinca. Encontrar o formato certo para apreciar o melhor da paisagem, no entanto, exigiu esforço. Antes da residência atual, havia no lugar um sobrado antigo, voltado para dentro e compartimentado, carente de atualizações hidráulicas e elétricas. Reformá-lo custaria caro e ainda poderia descaracterizar insatisfatoriamente o imóvel. Achar a solução para o impasse ficou a cargo do arquiteto e amigo Rafic Farah. Designer consagrado e ativista da sustentabilidade, ele mais uma vez se valeu da sua irrefreável criatividade para contornar a situação.

“Estudamos uma boa maneira de implantar a construção no terreno, situado num trecho alto de um bairro da zona oeste paulistana. Como as fundações antigas eram firmes, foi possível aproveitá-las”, conta Rafic, a respeito do ponto de partida do projeto. Além da demolição quase total, outra intervenção curiosa marca a história da nova morada: nenhum tijolo foi adquirido. O entulho gerado virou matéria-prima parapainéis de concreto ciclópico, que deram forma às novas paredes. “Para que a sustentabilidade seja algo real num canteiro de obras é preciso repensar o processo construtivo. Trabalhar com materiais de demolição pode exigir menos esforço, mão de obra e, consequentemente, reduzir custos”, avalia o arquiteto. Rafic calcula que uma divisória de alvenaria convencional custe cerca de R$ 130 por m², ao passo que a sua versão feita com elementos reaproveitados saia por R$ 25. “Sem contar as inúmeras caçambas poupadas, assim como as respectivas pegadas de carbono que seriam deixadas pelo ir e vir numa cidade como São Paulo”, comemora. Finanças à parte, ele concebeu o restante da morada dentro da mesma lógica: os novos pavimentos subiram apoiados em estruturas metálicas e com lajes pré-moldadas, ambas medidas também sabidamente econômicas.

Mas nem por isso a estética padeceu, pelo contrário. Poupar dinheiro no básico permitiu direcionar recursos para outros desejos. Caso do equipamento que capta chuva e conduz a água pluvial para as bacias sanitárias, das placas solares que aquecem a água e da piscina, cujo fundo com vidrinhos transfere claridade para o banheiro embaixo. Tudo à vista, revelando o pensamento original que inscreveu a edificação no entorno como um conjunto sólido e harmonioso, num equilíbrio delicado entre arte e técnica.

Concreto ciclópico

Trata-se da versão que emprega grandes blocos de rocha em vez de brita. Neste projeto, porém, o arquiteto usou destroços de alvenaria, contrapiso etc. para rechear os moldes de madeira, depois preenchidos com argamassa fluida. A cura foi mais rápida que na opção comum e o material se comporta bem ante desafios termoacústicos. Há explicações variadas sobre a origem do nome. A mais técnica aposta nos ciclos de reúso; a mais pitoresca remete à Grécia antiga, onde estruturas feitas com enormes pedras (sem argamassa) já eram utilizadas, e supostamente nem a figura mítica do Ciclope conseguia derrubar.

Matéria publicada por, Arquitetura e Construção em 23 de maio de 2016