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ABISMOS ARQUITETÔNICOS

24/06/2016

Nos estados do Rajastão e de Gurajat, na Índia, impressionante ruínas de cisternas causam impacto visual e nos ensinam muito sobre o uso das águas

A primeira impressão que me ocorreu quando vi as cisternas da Índia foi esta: parecem um delírio de degraus e patamares invertidos, uma imersão nas profundezas do deserto tão desconcertante quanto o impulso por um abismo. Realçados pelo jogo de luz e sombra, esses volumes formam uma espécie de mantra arquitetônico de estupendo efeito visual, provendo as escadas de um ritmo vertiginoso e repetindo um padrão arrebatador pela escala e pela multiplicação, não muito diferente de um mix de espelhos que reflete determinado espaço ad infinitum.

Como podem essas escadarias intermináveis desempenhar uma função tão prática e poética a um só tempo? Como podem essas obras sublimes ser tão desconhecidas, inclusive na própria Índia? Por que essa engenhosidade, que gerou locais tão úteis quanto fantasiosos, dificilmente ocorre em nossos dias? Que fabuloso seria se, assim como esse exemplo distante no espaço e no tempo, as técnicas de uso da água fossem reinventadas para então nos reaproximarmos dos rios de nossas cidades. Há casos raros na trajetória da arquitetura em que forma e função caminham lado a lado, indissociáveis, numa simbiose além de qualquer dúvida. As cisternas dos estados do Rajastão e de Gurajat são infraestruturas admiravelmente inventivas, nas quais o necessário junta-se ao ritualístico e ao político, em uníssono. Ao necessário porque foram erguidas nas regiões mais secas do país; ao ritualístico porque a água faz parte das cerimônias do islamismo e do hinduísmo; e ao político porque o acesso a esse bem significava poder e prestígio aos responsáveis pela execução dos reservatórios.

E aqui, no limbo da história de uma nação distante, ficam evidentes os erros cometidos ao desprezarmos os recursos naturais dos quais tanto dependemos. Para o Brasil, onde desde sempre tratamos nossos cursos hídrico com irresponsabilidade, estes aquíferos do deserto são uma lição apontando para a óbvia importância de administrarmos um patrimônio que, entre nós, só recentemente se mostrou escasso.

Matéria publicada por Arquitetura e Construção em março de 2016

1ª FOTO. Rajon Ki Baoli, no Parque Arqueológico de Mehrauli, em Nova Délhi: escadaria única.

2ª FOTO. Infelizmente abandonada, esta cisterna na cidade de Neemrana é uma das mais estreitas já feitas, descendo oito andares para alcançar o lençol freático.

3ª FOTO. Com linguagem clássica, este exemplar em Todaraisigh com faixas alternadas e um pavilhão no nível do espelho-d’água permanece em uso pela produção.