English Version

SONHOS A LÁPIS

27/06/2016

Os rascunhos da proprietária, uma jovem ilustradora, viraram realidade com a ajuda de duas arquitetas, suas amigas de longa data. Parceria divertida que resultou num apartamento com soluções mutáveis e o tão desejado ateliê

Nos anos 60, época em que se subia de bonde a Rua Teodoro Sampaio, em São Paulo, e tinha-se uma vista livre da cidade, sem tanto prédios como atualmente, meu avô comprou este apartamento de 130 m² em Pinheiros. Minha tia o dividiu com meu pai por muitos anos, até ele se casar e sair de lá. Em 2014, ela decidiu vender sua parte e eu, para a surpresa de todos, comprei. Só havia um porém: não ocorria uma reforma ali desde 1975, portanto as condições eram péssimas. Havia muito mofo e as janelas estavam acabadas… Também precisaria rearranjar os quartos – eram quatro, contando o de empregada. Como eu moraria sozinha, bastaria um.

Apesar de ser formada em arquitetura, nunca atuei na área, desde a faculdade sigo como artista e ilustradora. Mas foi lá que conheci a Júlia Risi, uma colega de sala, e a Claudia Bresciani, nossa veterana, e nos tornamos grandes amigas. Sem hesitar, chamei a dupla para me ajudar nessa empreitada, na qual aprendi, na marra, muita coisa. Da mesma forma que eu acompanhava o trabalho delas, elas acompanhavam o meu, e, sabendo da minha necessidade por um canto de desenho, elaboraram um estúdio enorme para mim, fruto da junção de dois dormitórios e integrado à sala.

As meninas colocaram uma porta de garagem entre ele e o estar, dessa forma posso fechá-lo caso queira me concentrar ou acomodar visitas. A ideia foi montar um apartamento reversível, a fim de facilitar se um dia sentir falta de mais um quarto ou até mesmo precisar vender o imóvel.

Curto muito receber amigos, por isso sonhava com uma cozinha aberta e aconchegante. Quando as arquitetas me perguntaram quais cores o ambiente teria, peguei logo um papel e comecei a criar colagens e desenhos. Foi muito prazeroso participar com o que gosto de fazer. Elaborei também a montagem de ladrilhos que compõe uma faixa no piso de ateliê, ocupando o lugar de um velho armário. Ficou divertido e é uma forma de registrar a história do apartamento. Meu pai se empolgou muito quando decidi arrematá-lo e recuperá-lo, e nos divertimos lembrando do laboratório de química que ele mantinha por hobby e acabou virando o meu closet. Faz um ano e meio que estou aqui. Não poderia ter ficado melhor!

Catarina Bessel, moradora

Matéria publicada por Arquitetura e Construção em março de 2016

1ª FOTO. Neste estudo de cores desenhado pela moradora, os armários da cozinha mesclam tons de salmão, mantidos no projeto final e mostarda. Veja como ficou o ambiente nas fotos a seguir.

2ª FOTO. Atendendo ao pedido da cliente para acomodar seus muitos livros de referência, as arquitetas previram uma estante de madeira ocupando os 4 m da parede doe estúdio. É aqui que Catarina passa a maior parte do tempo, pesquisando o desenhando.

3ª FOTO. As boas ideias deste projeto – A viga de concreto denuncia a localização da parede demolida, que antes dividia dois quartos. – Com pesos nas laterais, o modelo manual de duas folhas (DCS Serralheria) permite deixar o estúdio (ou quarto de visitas) mais reservado. Com estrutura de ferro, tem fechamento de policarbonato e cerra o vão de 2,16 x 2,74 m. – O espaço onde funciona o ateliê também vira quarto de hóspedes: basta esticar o futon. – Por sorte, todo o carpete que cobria o chão protegeu os tacos originais. Uma faixa de ladrilhos hidráulicos (Ornatos) e outra de cimento queimado surgiram onde não foi possível recuperá-los.

4ª FOTO. O banheiro recebeu ladrilhos hidráulicos em tons de cinza, pastilhas cerâmicas hexagonais (Atlas), azulejos brancos, bancada de concreto e armário de pínus.

5ª FOTO. No quarto, a base se manteve clara, assim como em todo o projeto. “Queríamos chamar a atenção para as cores da Catarina”, conta a arquiteta Júlia Risi.

6ª FOTO. Corredor preservado – No projeto do prédio, a área de serviço é aberta. Catarina foi a única moradora a mantê-la assim – e quer enchê-la de plantas.

7ª FOTO. A maior parede da sala ganhou muitos quadros feitos pela ilustradora. Um banco de concreto de 5,70 m de comprimento (Casa Franceza) acompanha a composição.

8ª FOTO. A ilha serve de mesa para refeições rápidas. O canto pintado de verde-água, hoje uma despensa, era a entrada de serviço, agora lacrada.

9ª FOTO. Apenas um dos quatro quartos originais dos anos 70 permaneceu: o de empregada virou closet e os outros dois se uniram para a criação do ateliê às salas de estar e jantar. Área: 130 m²; Mestre de Obras: Marcelo José de Souza; Equipe de Obras: Esmeraldo José de Souza e Epaminondas Antonio de Souza; Marcenaria: Sandro Régio e Carlos Zuim.